O Brasil não é alvo direto — ainda. Mas é peça no tabuleiro.
Esta semana tenho assistido a um espetáculo curioso: gente que brigou com uma sandália discutindo política internacional como quem masca ping-pong de hortelã. Muitas opiniões, narrativas e textos de grandes veículos — mas quase nada que se disponha a olhar a história como ela é: cíclica, teimosa e reincidente.
Todos os caminhos já levaram a Roma.
Hoje, estranhamente, passam pelos Estados Unidos — que estão a dois anos de “comemorar” o centenário da Grande Depressão.
Corram, seus tolos.
A depressão que se anuncia não será elegante nem pedagógica. Arrastará multidões, e no pior dos sentidos. Não se trata de achismo, torcida organizada ou má intenção ideológica. Trata-se de números.
Os Estados Unidos carregam hoje uma dívida pública próxima de 38 trilhões de dólares — algo em torno de oito vezes sua arrecadação anual, sendo esta inferior às despesas em quase dois trilhões por ano. É uma dívida estruturalmente impagável, sustentada apenas porque o mundo inteiro ainda finge não ver.
O império quando deixa de fingir
Ao observar com atenção os devaneios verbais de Donald Trump — tomar a Groenlândia, anexar o Canadá, “dominar” a América Latina — o verniz cai. Em termos menos polidos, o discurso é simples: transformar poder geopolítico em ativos, para amortizar aquilo que a América já não consegue sustentar sozinha.
A dívida.
A Venezuela foi apenas a circular enviada ao mundo:
ou vocês se rendem de bom grado — ou eu tomo.
Há momentos na história em que o império deixa de fingir.
Roma teve o seu.
Os Estados Unidos, talvez, estejam vivendo o deles.
Durante séculos, impérios não se sustentaram apenas pela força, mas pela narrativa: civilizar, proteger, libertar, levar progresso. Quando essa narrativa entra em colapso, resta o método antigo — extrair, pressionar, subjugar. É aí que a história deixa de ser romance e passa a ser contabilidade.
Trump não inventou o imperialismo americano.
Ele apenas dispensou o verniz.
Roma: quando conquistar virou pagar contas
No auge, Roma conquistava para expandir.
No declínio, conquistava para sobreviver.
As províncias deixaram de ser integradas ao sistema e passaram a ser espremidas. Tributos aumentaram, o exército virou cobrador, a cidadania virou moeda. Não foi a falta de ouro que derrubou Roma — foi o fato de que o centro já não conseguia se sustentar sem sugar a periferia.
O colapso não veio de fora.
Veio do esgotamento interno.
Os Estados Unidos e a dívida invisível
Hoje, os Estados Unidos sustentam sua posição global apoiados em três pilares cada vez mais frágeis:
– o dólar como moeda de reserva;
– o poder militar;
– a crença coletiva de que “sempre funcionou”.
Roma tinha o denário.
Os EUA têm o dólar.
O problema é simples: o dólar só vale enquanto o mundo acredita. Quando déficits permanentes, impressão de moeda e exportação de inflação corroem essa confiança, o império muda de comportamento. A diplomacia cede lugar à coerção.
É exatamente aí que Trump entra em cena.
Trump: não o fundador, mas o síndico do declínio
Trump não age como líder de um império confiante. Age como administrador de uma crise histórica. Seu discurso não é civilizatório; é patrimonial.
Groenlândia, Canadá, México, Colômbia, Venezuela — nada disso aparece por acaso. São territórios, rotas, recursos, influência. Ativos.
Trump fala como quem diz, sem rodeios:
o mundo vai pagar a conta.
Não há idealismo.
Há cobrança.
Venezuela: o ensaio
A Venezuela surge como laboratório perfeito: regime fragilizado, isolamento internacional, reservas estratégicas e população exaurida.
O New York Times — voz histórica do establishment americano — rompeu o silêncio confortável e classificou a ação de Trump como ilegal, imprudente e imperialista. Não é pouca coisa quando o império começa a ser denunciado por dentro.
A crítica não é apenas moral. É institucional: Trump atropela o Congresso, despreza o direito internacional e reintroduz a lógica da força nua, sem disfarce humanitário.
Roma tardia fazia o mesmo.
E não terminou bem.
E o Brasil?
Aqui a pergunta deixa de ser teórica.
O Brasil não é alvo direto — ainda.
Mas é peça no tabuleiro.
Somos potência regional, reserva de recursos, território estratégico e, paradoxalmente, um país cronicamente desarmado para pensar soberania com profundidade histórica.
Num mundo em que o império passa a agir como cobrador, países intermediários deixam de ser parceiros e passam a ser zonas de influência, amortecedores ou fontes indiretas de sustentação.
O risco brasileiro não é a invasão.
É a disciplina silenciosa: dependência, alinhamento forçado e submissão sem tanques — mas com contratos, narrativas e constrangimentos.
É o papel clássico das províncias romanas tardias.
O erro de tratar Trump como exceção
Trump não é um desvio.
É um sintoma.
Quando o império abandona o discurso moral e passa a falar apenas em “interesse direto”, “segurança” e “controle”, é porque já não acredita nem na própria narrativa.
Impérios não morrem pobres.
Morrem cansados, inchados, endividados — e sem fé em si mesmos.
Roma ensinou.
A história registrou.
E os Estados Unidos, talvez, estejam apenas repetindo o roteiro, agora em tempo real, diante de um mundo que finge não ver.
Conclusão
Quando todos os caminhos levam a Roma, é prudente perguntar: quem será província — e quem pagará a conta?
A Venezuela pode ser o ensaio. O Brasil, se não acordar, pode ser o capítulo seguinte.
“Em águas agitadas, não se formam depósitos.”
— Monteiro Lobato
(*) Israel Marazaki — fiscal por instinto, cronista por raiva e sentinela por missão
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