A desumanidade humana

Infelizmente, existem pessoas cujos sentimentos não incluem qualquer respeito aos animais e suas naturais ingenuidades

O felino não foi mais avistado. As buscas foram infrutíferas. Até o dia anterior ao sumiço, interagiu com os integrantes da família e recebeu afagos e carinhos dos amigos humanos, mostrando sua natural docilidade. Todos os locais habituais de descanso do bichano foram averiguados, sem sucesso. Nosso companheiro de alguns anos foi considerado como desaparecido. Babú, um gato castrado de cor cinza clara e cara destacada por pigmentos escuros recebeu esse nome pela aparência com o símio da espécie babuíno, não tinha costume de se aventurar em passeios distantes. Limitava-se a patrulhar e conferir de perto sua área de domínio, preferindo dormir por horas sob o frescor da sombra das árvores. Pacato, experiente e inteligente, o gato transmitia confiança com seu comportamento metódico e equilibrado.

Esse acontecimento não foi o primeiro a ser registrado na propriedade rural. Outros casos semelhantes aconteceram e as suspeitas, ainda sem a devida comprovação, mas com evidências, mostram um comportamento de eliminação sistemática de animais de hábitos territoriais, como os felinos. Obviamente o fato em si e seus desdobramentos não são novidade alguma em nosso meio, porque os imóveis urbanos e rurais estão sujeitos a visitas “indesejadas” de animais com agilidades escaladoras, como os felinos e alguns marsupiais. Ocorre que nessas incursões noturnas, acabam deixando para trás algumas “lembranças” como sobras de presas capturadas e alguma sujeira no ambiente em que escolheram para banquetear ou relaxar. Por conta dos eventuais incômodos como o odor característico de substâncias expelidas, os gatos são impiedosamente importunados, por vezes culminando com seu extermínio.

É interessante, portanto, ressaltar alguns sentimentos de onipotência presentes na espécie dominante. O bípede pensante se imagina detentor de direitos absolutos sobre todas as coisas, especificamente o poder sobre a vida e a morte de indivíduos irracionais, uma vez que esses não possuem capacidade para distinguir os limites estabelecidos entre os seres humanos. Sejam eles destinados à alimentação, ao trabalho e outras atividades ou ainda, nossos inseparáveis animais de estimação, que haveriam de receber toda a proteção e cuidados necessários ao seu bem-estar. Infelizmente, existem pessoas cujos sentimentos não incluem qualquer respeito aos animais e suas naturais ingenuidades. Os bichos atendem exclusivamente aos seus instintos e jamais deveriam ser penalizados pela insensibilidade humana. Como sempre, é o bicho homem mostrando sua desumanidade costumeira.

Nosso estimado gato de cara preta veio, foi feliz e trouxe alegria em sua estada terrena. Será lembrado pela docilidade, tranquilidade, parcimônia no convívio com seus pares e principalmente, que todas as criaturas são obras divinas e merecem respeito. Restam as saudades dos bons momentos daquele que jamais será esquecido. Esteja em paz nos braços de São Francisco de Assis, Babú…


(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR.      

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