Sócrates e a morte como triunfo…

Aquilo que hoje é encarado com temor e fuga, para Sócrates foi um rito de passagem

Comecei o ano com Platão. Uma releitura de “Os pensadores”, da Abril Cultural, que inclui os diálogos “Eutífron”, Apologia de Sócrates, Críton e Fédon. Vou falar de Fédon porque, com a Apologia de Sócrates, é o que eu mais aprecio. Sócrates lido pelos diálogos, ao falar da alma e da finitude humana, desfia a morte. Em um discurso crucial para se entender a vida. Se filosofar é aprender a morrer, como ensina Montaigne, Fédon encaixa como luva. Ali, não se vê um Sócrates moribundo, a confessar arrependimentos no leito do fim. Ele concorda, discorda, contesta, sem perder a fleuma no momento crucial, que se avizinha.

É um aprendizado. Transformar um ato de desespero e medo em triunfo. O conceito de alma, tão propalado no Cristianismo, é desnudado. Numa resposta a Símias, Sócrates diz que nossa alma existiu antes de termos nascido. “É evidente, Sócrates, que nossa alma se assemelha ao que é divino e nosso corpo, ao mortal”, devolve o interlocutor. É bom frisar que o Deus do qual falam não é o cristão. Sócrates viveu no século V, 460 anos antes de Cristo.

Não deixou nada escrito, o que sabemos dele vem dos diálogos platônicos, como o Fédon. A morte dele era iminente, mas se quisesse, poderia ter fugido de Atenas. Acusado de corromper a juventude e a duvidar dos deuses, recebeu a pena capital. Os discípulos lhe oferecem um plano de fuga, mas Sócrates rejeita e proporciona uma despedida triunfal. Antes de o escravo trazer a taça de cicuta, o veneno mortal, ele e os interlocutores põem a morte na berlinda.

Aquilo que hoje é encarado com temor e fuga, para Sócrates foi um rito de passagem. Uma espécie de ponte cuja travessia deve ser sábia. Tanto que após cobrir a cabeça, num gesto de despedida, já com o baixo-ventre rijo e frio, encontra forças para recomendar a Críton, um dos que o assistem: “Somos devedores de Asclépio (deus da medicina e da cura), devemos-lhe um galo, pois bem, paga minha dívida, não te esqueças”. A manifestação derradeira seria o agradecimento à morte que punha fim à doença da vida. Fim do sofrimento terreno e libertação da alma.

Se você aprecia filosofia, leia Fédon. Vale a pena em um mundo em que somos oprimidos e buscamos a todo custo adiar o momento final. Fica a dica!