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O ovo da serpente

“É de novo que se endireita o galho”. Nada mais verdadeiro

A notícia incomoda e provoca as mais diferentes reações, mas já não surpreende porque os casos dessa natureza são recorrentes. O espancamento de um indefeso cão comunitário, que posteriormente acabou em eutanásia do animal revela um comportamento condenável, entretanto os menores de idade são inimputáveis penalmente.

Aos menores de 18 anos, o Estatuto da Criança e do Adolescente utiliza-se da definição de “ato infracional” a toda conduta descrita como crime ou contravenção penal. Acrescente-se a esse tipo de situação as movimentações parentais, que buscam obter junto ao ordenamento jurídico todas as benesses possíveis, no intuito de supostamente proteger e preservar os acusados. É uma postura legítima, ainda que com escopo de indisfarçada impunidade.     

As gerações mais antigas de brasileiros não conheceram as facilidades da atualidade, como as novidades tecnológicas e as infindáveis e protetoras redomas de vidro sociais. Se não tivessem uma condição financeira privilegiada, tinham que se virar com o que estava disponível naquelas épocas e ainda, se esmerar em formação técnica ou acadêmica, além de contribuir ativamente para o sustento da família, quase sempre numerosa. Circunstância essa, aliás, que fornecia virtuosos subsídios, indispensáveis para a formação e a consolidação do caráter de um indivíduo.

Nesse contexto se encaixa aquele obsoleto ditado popular, que sabiamente ensina: “É de novo que se endireita o galho”. Nada mais verdadeiro. Pois é na primeira infância que se transmite hábitos e costumes edificantes, as condutas retas, os exemplos de apreço e consideração. Para isso se faz necessário uma sólida estrutura familiar que proporcione amor, carinho, dedicação e tantos outros cuidados que a criança necessita para desenvolver na plenitude, seus sentimentos em relação ao semelhante e ao mundo em que vive.

O ovo da serpente vem sendo gestado nesse País há bastante tempo. O nível de permissividade e omissão vigentes é inaceitável e permeia todos os setores da sociedade, que praticamente chancelou passivamente comportamentos imorais ou delinquentes ao extremo. A programação televisiva há muito superou todos os limites imagináveis de indecência, com a erotização implacável e sistemática de nossas crianças. Nas produções musicais a situação não é diferente, porque o escracho rasteiro da sexualização precoce já ultrapassou todas as fronteiras, sem que houvesse qualquer tentativa de contenção por parte do poder público. Os famigerados “pancadões” de som, os veículos equipados com escapamentos barulhentos, os incontroláveis e violentos confrontos entre torcidas rivais e tantas outras demonstrações inequívocas de incivilidade e falta de urbanidade mostram a total ausência de valores morais que assola essa pátria e que, ironicamente, aboliu do currículo escolar a saudosa disciplina de Educação Moral e Cívica.

Some-se a essa situação dramática de insensatez e alienação coletiva os escândalos financeiros e institucionais, envolvendo autoridades dos poderes da República. Servidores de alto escalão, que a princípio haveriam de apresentar conduta ilibada, são flagrados chafurdados na lama da corrupção e das profusas denúncias de favorecimento ilícito. As reações pífias da sociedade diante do desterro de valores morais revelam a letargia de uma nação, inexplicavelmente pouco interessada na estatura moral de seu povo. O questionamento nesse momento, portanto, é uma incógnita: ainda restam esperanças?  


(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR.

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