Por que armar a população?

“O que vem de cima vira comportamento embaixo. O exemplo pesa. Sempre pesou”

Por que armar a população? Li e reproduzo, dando crédito ao final.

‘Quando Jair Bolsonaro falava em campanha que tinha que “metralhar a petralhada”, fazendo gesto de arma, aquilo nunca foi um comentário isolado. Foram frases repetidas ao longo dos anos, em palanques, entrevistas, encontros com apoiadores. Linguagem agressiva, de confronto, que transformava adversário político em inimigo.

E no meio disso tudo, já como presidente, Bolsonaro começa a assinar decretos para facilitar a compra de armas. Afrouxa regras, aumenta quantidade permitida, amplia acesso a munição. Não é algo desconectado no tempo. As falas violentas já existiam, e a liberação das armas vem depois, dentro do mesmo personagem político.

Aí fica difícil fingir que isso não chama atenção.

De um lado, um líder que fala em “metralhar”. Do outro, o mesmo líder facilitando o acesso a armas num país já tenso, já agressivo, já inflamado. Dá pra tratar isso como coincidência? Pelo menos como reflexão, não dá pra ignorar.

Ainda mais porque muita gente segue o líder em tudo. Repete palavra, tom, gesto. Não é força de expressão. A gente vê isso todos os dias. O que vem de cima vira comportamento embaixo. O exemplo pesa. Sempre pesou.

E o Brasil não é um país calmo. Basta olhar o trânsito, as discussões em fila, os comentários nas redes sociais. As pessoas já começam qualquer debate no xingamento, no ataque, na raiva. Agora imagina esse cenário com mais gente armada, se sentindo mais forte, mais segura de si, mais autorizada a ir até o fim.

O caso do policial que matou um motoboy por causa de sete reais mostra exatamente esse ponto. Não foi assalto, não foi crime organizado, não foi legítima defesa diante de uma ameaça grave. Foi uma discussão banal que saiu do controle. Um momento de impulso. Com uma arma disponível, o erro vira definitivo. Sem arma, aquela situação talvez tivesse terminado ali, como tantas outras terminam todos os dias.

Quando se diz que quem quer matar mata até com facão, isso não responde a tudo. A arma encurta o caminho. Facilita a decisão no calor do momento. Dá sensação de poder a quem já está tomado pela raiva.

Isso não significa dizer que Bolsonaro queria que pessoas saíssem matando outras por briga de trânsito ou discussão boba. Mas também não dá pra dizer que houve cuidado real ao juntar discurso violento com facilitação do acesso a armas. O risco estava ali. E foi assumido.

Por isso, a liberação de armas não pode ser analisada sozinha, como se fosse só uma medida administrativa. Ela precisa ser vista junto com o discurso, com o exemplo, com a forma como conflitos eram tratados publicamente por quem estava no topo do poder.

Não é acusação. É reflexão necessária.

Meu comentário (Akino) – A este texto de Kelly Maria Ferreira, no Facebook, há pouco a acrescentar. Diria que em alguma oportunidade, Bolsonaro disse, em outras palavras, que a população armada ajudaria na defesa num eventual golpe. Na trama golpista isso fica nas entrelinhas. Cristão é cristão verdadeiro, não pode defender armas, penso. A arma do cristão é o amor, diria Jesus.

Imagem gerada por IA