O caso Rodrigo nasce do desprezo

Rodrigo não morreu apenas pela violência imediata. Morreu porque, para alguém ali, ele não era plenamente gente. Era obstáculo

O caso Rodrigo Castanheira não é exceção. É sintoma.
Rodrigo Castanheira, adolescente, foi morto em Brasília após uma briga de rua.
Quando Rodrigo foi espancado até a morte em Brasília, muita gente correu para o roteiro confortável: tragédia, briga, excesso, juventude.
Tudo muito asséptico.
Tudo muito conveniente.

O que quase ninguém quer encarar é que o caso Rodrigo não nasce da violência — nasce do desprezo.
E o desprezo, em Brasília, tem endereço social bem conhecido.

Há décadas a capital da República produz um tipo humano específico: o jovem criado no excesso, sustentado por rendas dissociadas de mérito, educado num ambiente onde dinheiro, poder e impunidade caminham juntos.
Não é riqueza produtiva.
É renda política, cartorial, estatal.
É dinheiro que cai, não dinheiro que custa.

Esse jovem aprende cedo que o mundo não reage.
Que o erro é negociável.
Que a dor do outro é abstrata.
E que consequências são coisas que acontecem com os outros.

Não por acaso, os episódios se repetem: agressões a moradores de rua, fogo em indígenas, espancamentos tratados como “confusão”, mortes relativizadas por notas frias. O caso Rodrigo entra nessa linha histórica como mais um capítulo — não como ponto fora da curva.

Cazuza foi direto demais para ser confortável quando escreveu, e Supla fez questão de esfregar na cara da geração seguinte: a burguesia fede.
Não por cheirar mal, mas por apodrecer moralmente quando não encontra limites.

Gabriel o Pensador descreveu esse personagem com precisão cirúrgica em Retratos de um Playboy:

“Faço só o que os outros fazem e acho isso legal
Arrumo brigas com a galera e acho sensacional
Me olho no espelho e me acho o tal
Mas não percebo que no fundo eu sou um débil mental.”

A força desse verso não está no insulto — está no diagnóstico.
Gabriel não fala de falta de inteligência.
Fala de atrofia moral.

O playboy que ele descreve é o mesmo que Brasília insiste em produzir: alguém que copia comportamentos, busca validação no conflito, se vê como protagonista e não enxerga humanidade fora do próprio reflexo.
A briga vira diversão.
O outro vira figurante.
A violência vira performance.

Quando esse tipo humano encontra álcool, tédio e certeza de impunidade, o resultado não é acidente. É desfecho lógico.

Rodrigo não morreu apenas pela violência imediata.
Morreu porque, para alguém ali, ele não era plenamente gente.
Era obstáculo.
Era provocação.
Era algo descartável.

Esse é o elo invisível — moral, não cronológico — entre o espancamento de um adolescente em 2026 e o corpo queimado de Galdino em 1997.
O método muda.
O desprezo é o mesmo.

Renato Russo já havia avisado — e talvez ninguém tenha ouvido porque a melodia era bonita demais. Em Mais do Mesmo, o retrato é devastador:

“E enquanto isso, na enfermaria
Todos os doentes estão cantando
Sucessos populares
E todos os índios foram mortos.”

A enfermaria é o país.
Os doentes somos nós.
Cantamos sucessos, discutimos narrativas, disputamos versões, enquanto os corpos se acumulam — sempre dos mesmos lados, sempre dos mesmos lugares sociais.

O caso Rodrigo entra exatamente aí: mais um morto enquanto a sociedade decide se foi “fatalidade”, “excesso” ou “tragédia juvenil”.
Nunca estrutura.
Nunca formação.
Nunca responsabilidade.

Brasília, mais do que qualquer outra cidade brasileira, normalizou a ideia de que ter sobrenome, cargo ou acesso substitui mérito, limite e culpa.
E quando mérito some da equação, sobra arrogância.
Quando limite desaparece, sobra violência.
Quando a culpa nunca chega, sobra repetição.

Por isso o caso Rodrigo não é ponto final.
É vírgula.

Enquanto jovens forem criados no conforto absoluto, sem dever, sem risco e sem consequência;
enquanto a elite confundir proteção com encobrimento;
enquanto a cidade continuar tratando seus monstros como “bons meninos que erraram”, novos Rodrigos surgirão — não porque o Brasil é violento, mas porque Brasília ensina que a vida do outro custa pouco.

E o mais trágico:
as músicas já avisaram.
Os versos estão aí há décadas.
O problema é que ninguém quis parar de cantar para escutar.


(*) Israel Marazaki — fiscal por instinto, cronista por raiva e sentinela por missão

Imagem: Reprodução