O cansaço do bem e do mal


“O homem não nasceu para o trabalho. Quem trabalha não é livre”
Na década de 1970, meu pai e meus irmãos chegavam da roça. Minha mãe havia preparado o jantar e dado de comer às galinhas e aos porcos. Após a janta, eles se sentavam no terreiro. Estavam cansados de puxar enxada, quebrar milho ou abanar café na peneira. Mas não se mostravam exaustos. Esticavam as pernas, contavam causos e dali a pouco iam dormir. No outro dia, estavam recuperados para voltar ao eito e cumprir mais uma etapa da tarefa roceira. Aquele cansaço deles é o que Byung-Chul Han chama de contemplativo ou de cura. Que não está associado à sociedade do desempenho.
Li “Sociedade do cansaço”, numa ótima edição da Editora Vozes. Pequena, bem acabada com visual e cor contemplativos. O conteúdo é um alerta a esse mundo que nos empurra em busca de mais e mais sem se atentar à pessoa humana. Se antes vivíamos na sociedade disciplinar, analisada por Foucault, em “Vigiar e punir”, hoje vale o desempenho. Não há mais o sujeito a obedecer; cada um é patrão de si mesmo e coloca metas a cumprir. Não apenas no trabalho. Em tudo se propõe competição. Esses dias soube de um concurso de leitura em que o vencedor seria aquele que lesse mais livros.
Ler mais livros significa meta. É o indivíduo colocando um marco para alcançá-lo. Não há preocupação em contemplar a leitura. Quantidade e qualidade se confrontam. É preocupante essa coisa de gerir o próprio desempenho e eliminar o outro como explorador. Explica Byung-Chul Han: “Ao contrário, eu próprio exploro a mim mesmo de boa vontade na fé de que possa me realizar”. Para ele, vivemos uma fase histórica específica, na qual a liberdade evoca uma coação de si mesmo. Se tudo está em mim, vou acelerar até quando puder. Nem o céu será o limite.
Segundo o autor, o resultado é um mundo de pessoas doentes. A síndrome de Burnout, distúrbio emocional crônico caracterizado por exaustão extrema, é um mal iminente. A depressão também. No lugar do êxito não atingido surge o vazio. E a perda da fé, conforme ele relata: “Não diz respeito apenas a Deus e ao além, mas à própria realidade, torna a vida humana radicalmente transitória”. Portanto, nem sempre o visível é o saudável e o ideal, como se vê por aí. “A mera vida sadia, que hoje adota a forma do sobreviver histérico, converte-se no morto; sim, num morto-vivo”, afirma Byung-Chul Han.
Concordo e concluo com mais uma frase dele: “O homem não nasceu para o trabalho. Quem trabalha não é livre”. Ao menos para esse trabalho que nos suga e nos oprime. É preciso se libertar enquanto é tempo. Chega de cansaço e esgotamento. A vida pede contemplação.
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