O brasileiro não é contido. Não é protocolar. Não sabe vencer com discrição nem perder em silêncio
O nome é Lucas Pinheiro Braathen.
Mas ontem, na neve estrangeira, o que se viu foi Lucas Brasileiro.
O Brasil conquistou sua primeira medalha nos Jogos Olímpicos de Inverno. Não foi ouro. Foi maior que isso: foi a primeira. Em 526 anos de história, um filho do trópico subiu ao pódio do gelo.
E não subiu em silêncio.
Criado na Noruega, moldado na disciplina escandinava, Lucas sempre carregou a fratura identitária dos que pertencem a dois mundos. Para os noruegueses, era o brasileiro. Para muitos brasileiros, o gringo. Não cabia inteiro em lugar algum.
Até decidir caber.
Insistiu nas cores do Brasil no colarinho do uniforme — ainda que isso causasse desconforto no comitê e nos patrocinadores. Não era detalhe estético. Era afirmação. Era dizer, em plena Europa gelada: eu sei de onde vem o meu fogo.
Há ecos históricos nesse gesto.
Também Dom Pedro I foi visto como deslocado. O príncipe que se recusou a voltar. O homem que assumiu para si o termo “brasileiro”, criado pela nobreza portuguesa com intenção depreciativa. O que era deboche virou identidade. O que era escárnio virou grito.
Lucas faz o mesmo.
Quando declara:
“Eu não iria me tornar um atleta se não fosse pelo Brasil.”
Ele não fala de infraestrutura. Fala de intensidade.
O brasileiro não é contido. Não é protocolar. Não sabe vencer com discrição nem perder em silêncio. Vive esportes como vive a vida: em combustão.
E então vem a frase que nenhum manual escandinavo aprovaria:
“A gente não chegou aqui seguindo o protocolo, mas a gente fez do nosso jeito.”
Quer mais brasileiro que isso?
“A gente dá o nosso jeito” é sentença ambígua — pode ser atalho ou criatividade, vício ou virtude. Mas, quando canalizada em disciplina e mérito, torna-se ousadia civilizatória.
Sua apresentação foi impecável. Na neve e nas palavras:
“Eu sou um atleta representando duzentos milhões de brasileiros, e eu não vou parar até conseguir levar a NOSSA bandeira ao topo daquele pódio.”
O norueguês compete.
O brasileiro representa.
Lucas não usurpou identidade alguma. Ele a escolheu. E identidade escolhida é sempre mais poderosa que identidade imposta.
Talvez brasileiro não seja apenas quem nasce sob o sol tropical.
Talvez seja quem decide arder — mesmo sob a neve.
E ontem, pela primeira vez na história dos Jogos de Inverno, o gelo teve que aprender a conviver com o fogo.
(*) Israel Marazaki — fiscal por instinto, cronista por raiva e sentinela por missão
Foto: Rafael Bello/COB
