Espelho de complexidades

A homenagem da Acadêmicos de Niterói a Lula é mais um capítulo de uma multifacetada contenda carnavalesca

Interessante a entrevista do historiador Luiz Antônio Simas hoje, na Folha [para assinantes]. Alega que o carnaval sempre foi mais sobre conflito do que consenso, disputas que refletem as contradições da sociedade brasileira: direito à cidade, manifestações políticas, cultura afro, pluralidade regionais, racismo religioso, liberdade sexual x conservadorismo, sobretudo com a expansão das religiões neopentecostais nas últimas décadas.

Em várias cidades do Brasil, há críticas e tensões sobre a organização do carnaval. As disputas se acirram pelas transformações da sociedade brasileira e sua inflexão conservadora. A homenagem da Acadêmicos de Niterói a Lula é mais um capítulo dessa multifacetada contenda carnavalesca. Há um outro fator que é financeirização e captura da festa pelo mercado, o mercado e sua mão (não tão invisível assim), o grande disciplinador das sociedades contemporâneas.

Mega blocos, clubes sociais em detrimento do tradicional carnaval de rua e do direito à cidade. O poder público é que geralmente regula e gerencia um evento espontâneo e oriundo da mais orgânica expressão popular. No fundo, conter a catarse e a expressão das massas é também uma preocupação.

O antropólogo Roberto Da Matta já nos mostrou em seu clássico “Carnaval, malandros e heróis” que carnaval é subversão, inversão de papéis, suspensão temporária das hierarquias para depois, na quarta de cinzas, tudo voltar ao normal.

O fato é que a festa continua sendo um espelho das complexidades, fraturas, da potencialidade criativa e inventiva do povo e das disputas na sociedade brasileira.


(*) Joel Júnior Cavalcante é professor, sociólogo e comentarista político

C/Foto: Arquivo Nacional/Correio da Manhã