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O pecado nosso de cada dia

Precisamos deixar de lado costumes arraigados, voltando a atenção para a realidade atual e principalmente, para o futuro das gerações vindouras

O jovem separava agilmente os produtos no setor de hortifrúti do mercado. A rapidez com que desempenhava sua função destoava da eficiência necessária para essa atividade corriqueira porque a quantidade descartada de frutas, legumes e verduras surpreendia pelo volume. Era evidente que grande parte dos alimentos retirados apresentava apenas algumas imperfeições, manchas ou pequenas avarias, em nada comprometendo a qualidade nutricional para consumo humano. Instado sobre o assunto, o colaborador revelou que apenas seguia orientações da gerência quanto à classificação e separação dessesprodutos. Nota-se que existe a necessidade em manter o padrão estético daquilo que é exposto nas bancas, uma forma de garantir a efetiva comercialização de perecíveis no menor tempo possível, diminuindo assim os prejuízos inerentes ao processo natural de degradação.

Conforme dados das Centrais de Abastecimento (Ceasa) em todo o País, as perdas de frutas, legumes e verduras totalizam cerca de 340 mil toneladas anuais, gerando um prejuízo econômico estimado em 1,5 bilhão de reais por ano. O descarte impacta a sustentabilidade e a segurança alimentar embora existam projetos em atividade como bancos de alimentos ainda em condições de consumo, que tentam minimizar esse cenário desolador. As principais causas que promovem o desperdício de alimentos na cadeia produtiva são colheitas sem adoção de processos específicos, transporte em embalagens inadequadas e sem cautela no manuseio, armazenamento em temperaturas e condições impróprias e a exposição com o emprego de práticas equivocadas. Esse conjunto de fatores impacta diretamente na rentabilidade da atividade, uma vez que, para atingir o ponto ideal de colheita o vegetal demandou empenho financeiro e humano desde o primeiro dia. Foram meses de dedicação integral para que o alimento pudesse chegar saboroso, saudável e com aparência impecável à mesa do consumidor.

Nosso País é privilegiado em recursos naturais, com estações climáticas definidas e que proporcionam a regularidade das precipitações pluviométricas. O relevo, as condições razoavelmente favoráveis de logística, as novas tecnologias de produção como a introdução de estufas climatizadas, a fertirrigação, a hidroponia e a demanda crescente propiciam abundância na produção de alimentos. Não obstante os resultados expressivos em produtividade, qualidade e oferta regular, o consumidor brasileiro se mostra cada vez mais exigente. Existe uma cultura de resistência e desapego impregnada na população com relação ao consumo racional de alimentos, inclusive os que apresentam alguma avaria superficial.

Não por acaso, as montanhas de alimentos perecíveis descartados diariamente proliferam em mercados e centros de distribuição. Ignoramos deliberadamente a capacidade curativa das hortaliças e frutas, que apresentam alta densidade nutricional, são ricas em antioxidantes, vitaminas, minerais e fibras, que fortalecem a imunidade e auxiliam na prevenção e no tratamento de diversas enfermidades, somente porque não possuem a aparência desejada.

Precisamos deixar de lado costumes arraigados, voltando a atenção para a realidade atual e principalmente, para o futuro das gerações vindouras. Não é tarefa fácil, porque mudanças exigem determinação e adesão colaborativa. Não somente em relação a alimentos, mas também com o desperdício de água potável, de energia elétrica e dos mais diferentes produtos que utilizamos no
cotidiano. É tempo, portanto, de rever conceitos. E como ensina aquele menosprezado ditado popular, “sabendo usar, não vai faltar”. Assim esperamos.


(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR.

Foto: Instituto Cidade Amiga/Senado Federal

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