A lei do retorno


Por quais motivos resolveram inserir personagens alheios ao tema do enredo, promovendo intolerância religiosa e nítida zombaria a instituições seculares?
Um princípio filosófico e espiritual sugere que todas as ações, pensamentos e intenções, sejam elas positivas ou negativas, retornam ao emissor em forma de consequências, no estilo “causa e efeito”. Convencionou-se intitular esse conjunto de acontecimentos que vivenciamos durante nossa existência como “Lei do retorno”, ou seja, literalmente “colhemos o que plantamos”. Em algumas situações específicas, poder-se-ia afirmar que os efeitos dessa teoria fazem mesmo sentido quando alguma ação encontra resposta imediata ou aparece em pouco tempo. Já em outras ocasiões, mesmo as mais relevantes ou impactantes o tempo se encarregará de apagar as lembranças do fato, porque vivemos em uma época em que a quantidade de informações ininterruptas supera a capacidade do intelecto humano em processar e armazenar tudo adequadamente.
Transcendendo as teorias sobre a volatilidade e a frivolidade presentes na essência do caráter humano, eis que, pelo menos aparentemente, o retorno já chegou para algumas dejeções carnavalescas recentes. A escola de samba Acadêmicos de Niterói, que desfilou no carnaval carioca e cujo enredo homenageia o atual presidente da República, acabou ficando em último lugar da classificação final, sendo rebaixada para a segunda divisão do grupo especial. A apresentação contou com alegorias polêmicas, incluindo alusões explícitas de caráter político-partidário, encenações grotescas de autoridades em situações ultrajantes e o pior, uma ala especificamente destinada a ridicularizar a família com o título “Neoconservadores em conserva”, uma pérfida alusão ao tradicional núcleo basilar da sociedade.
Se a intenção primeira seria a de mimosear o mandatário federal, não obstante as distintas interpretações da legislação eleitoral em vigor, a liberdade de expressão ante a escolha do tema haveria de prevalecer e em tese, justificaria tal iniciativa, senão por detalhes óbvios e ululantes. A trajetória de vida do homenageado, incorporada na história política do País por si só forneceria conteúdo mais do que suficiente para inspirar a confecção de numerosos carros alegóricos. Então, por quais motivos resolveram inserir personagens alheios ao tema do enredo, promovendo intolerância religiosa e nítida zombaria a instituições seculares? A família tradicional, constituída por pai, mãe e filhos, retratada em uma lata de conservas mostra o desprezo e o desapego aos valores morais presentes naqueles que haveriam de ter como objetivo principal a alegria típica da época momesca, em uma manifestação cultural reconhecida mundialmente. Preferiram então macular o verdadeiro sentido do carnaval, que é a irreverência em forma de performances criativas, ao reafirmar posicionamentos ideológicos viabilizado com recursos públicos, em momento inoportuno e excessivamente polarizado.
A lei do retorno haverá de alcançar aqueles que ousaram escarnecer a fé alheia. Os cristãos e todos aqueles que carregam consigo valores inalienáveis que norteiam a sociedade jamais se intimidam ao serem retratados em uma lata de conserva. Pelo contrário, ser conservador é estar continuamente empenhado em garantir a disseminação de valores morais consolidados, que orientam e delineiam os rumos de uma nação. Ser conservador é propiciar exemplos de retidão de caráter, de honestidade, de ética e respeito em quaisquer circunstâncias. Ser conservador é nunca aceitar passivamente demonstrações desse naipe e reagir apenas com argumentos, sem jamais igualar-se ao nível daqueles. A resposta aos ousados foliões, suas criaturas asquerosas e seus desvairados criadores virá, certamente. Ao seu tempo.
(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR
Imagem: Reprodução/TV Globo
*/ ?>
