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Praça Faroupilha

Com graça e beleza, uma mulher negra evitou uma tragédia que parecia inevitável

Em nome da modernidade, a reforma da praça Farroupilha acabou por destruir o maior espaço de concentração popular de Maringá. Concentrações históricas, abrangendo facilmente entre 5 a 10 mil pessoas foram simplesmente banidas.

Proibidos os shows em comícios? Ora, mesmo sem shows, o povo do lado norte de Maringá gostava de comparecer.Muitas vezes, atravessei o meu caminhão de som nas imediações da praça e a multidão comparecia.Ao invés de profissionais- a ideia foi do saudoso Osvaldo Reis – ele convidava ao palco os violeiros e cantores do bairro e a festa rolava.

Triste mesmo foi o boicote a Leonel Brizola, candidato a Presidente da República em 1989. Na época, os shows não eram proibidos, mas muito caros. Para o PDT, um seleto grupo de artistas apresentava- se quase a preço de custo, na tentativa de ajudar Brizola a chegar lá.

Nos comícios de Maringá e Londrina, os Engenheiros do Havaí e Sandra de Sá haviam ficado de revezar-se para o abrilhantamento dos comícios de Brizola. Na época, eu era deputado federal e presidente estadual do PDT paranaense.

Na praça Farroupilha, uma incalculável multidão. Começa o show. A multidão vai ao delírio, acompanhando os sucessos dos Engenheiros do Havaí. Subitamente, as luzes se apagam. Vaias, assobios, o pânico.

Nossos técnicos fazem de tudo para restabelecer a claridade. Nada. O então prefeito de Londrina, Antônio Belinatti pondera:
É melhor sairmos na escuridão, governador Brizola, para que não haja o risco de perder também o comício de Londrina. Brizola concorda e saímos os três rumo aos cinco conjuntos londrinenses.

Depois de uma pesada meia hora, é que um técnico descobre o local do boicote nas instalações e a luz brilha de novo na Praça Farroupilha.
– Vamos quebrar, pessoal? – surge uma voz de comando ante a decepção pela ausência de Brizola e dos Engenheiros do Havaí.
– Vamos quebrar! reage a multidão.
– Primeiro capotamos a jamanta e depois o caminhão do professor Tadeu.
– Por amor de Deus, pessoal! gritava em pânico a juventude socialista do PDT.
– Vamos virar, pessoal- e o imenso palanque improvisado começa a ceder, quando uma desconhecida se aproxima da escada.
– Com licença, pessoal!
– Desça da escada, negrinha! grita desesperado um jovem do PDT.
A desconhecida o contempla com a maior tranquilidade do mundo e apenas balbucia:
– Eu sou a Sandra de Sá. Você permite que eu me apresente ao povo de Maringá?
– Perdão, Sandra de Sá! gritam juntos os jovens em desespero.

O silêncio de Brizola muito nos entristeceu, mas com graça e beleza, uma mulher negra evitou uma tragédia que parecia inevitável.


(*) Tadeu França, ex-deputado federal constituinte

Foto: Google Street View

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