Caso Sercomtel, o vexame


Os tais R$ 130 milhões da privatização da empresa nunca entraram de fato no caixa da prefeitura de Londrina ou da própria Sercomtel
A privatização da Sercomtel, vendida em 2020 por cerca de R$ 130 milhões ao Fundo Bordeaux (valor inferior ao ativo)– ligado ao empresário Nelson Tanure –, ameaça transformar-se em um dos maiores vexames político-jurídicos do Paraná. O que foi vendido como “solução para capitalizar e modernizar” acabou ligado a uma engenharia financeira sofisticada que hoje cheira a fraude contábil.
Relatórios internos e técnicos apontam que os tais R$ 130 milhões nunca entraram de fato no caixa da prefeitura de Londrina ou da própria Sercomtel. O valor supostamente pago teria “entrado e saído” por uma conta do Banco Master num mesmo dia, migrando para aplicações e CDBs da própria instituição – um movimento contábil que, na prática, não colocou um centavo de capital novo na empresa. Essa manobra contábil é tão surreal que advogados já interpretam como possível vício de origem no processo de privatização, capaz de embasar uma ação judicial com pedido de anulação do negócio.
O cenário fica ainda mais grotesco à medida que o Banco Master — instituição central nessa suposta simulação financeira — desabou e foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025, alvo da Operação Compliance Zero, que investiga uma teia de fraudes envolvendo bilhões em ativos falsificados e artifícios contábeis que corroeram o próprio sistema bancário.
Para completar o surrealismo: o mesmo grupo que comprou a Sercomtel levou a Copel Telecom — agora Ligga — em 2020 por cerca de R$ 2,4 bilhões, um negócio que sequer levantou bandeiras de alerta à época, aprovado pelo Cade e celebrado pelo então governador como um marco de gestão. Hoje, com credores pressionando e a empresa sendo vendida por valor fracassado no mercado, o histórico dessa operação parece mais um capítulo de um thriller financeiro mal escrito.
Do ponto de vista político, o impacto pode ser devastador: vereadores em Londrina articulam CEI/CPI, o Ministério Público já recebe denúncias, e o desgaste recai sobre quem patrocinou e comemorou a venda. A prefeitura de Londrina, em nota, evita comentar o mérito, repassando responsabilidades à gestão anterior — como se isso aliviasse o peso de um possível rombo fiscal e reputacional nas contas públicas. Se confirmadas as inconsistências, não será apenas uma privatização malfeita — será um símbolo de incompetência e conivência que pode custar caro ao contribuinte, aos cofres públicos e à credibilidade das instituições envolvidas.
(*) Sandro Moraliza integra o Fiscaliza Londrina
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