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Paranoia ou cubismo administrativo?

Quando um doutorado troca a mesa de planejamento pelo apito do recreio

Há duas espécies de administradores da educação.

Uma é composta daqueles que olham para a escola como ela é: lugar de formação, onde cada peça tem função definida e onde o talento deve ser empregado com sobriedade e método. Estes procuram ordenar o sistema com o mesmo cuidado com que um mestre de obras distribui vigas e pilares. Sabem que doutorados não são ornamentos burocráticos, mas instrumentos de inteligência administrativa. Quando acertam o caminho, a educação cresce sólida, como edifício erguido sobre cálculo e proporção.

A outra espécie é formada pelos que enxergam a secretaria através de teorias passageiras e entusiasmos administrativos que brotam aqui e ali como furúnculos de gestão. Sob o pretexto de reorganização, desmontam o que encontram pela frente e rearranjam peças como quem faz experiências com um brinquedo novo.

É nesse campo que começa a surgir em Londrina um curioso fenômeno pedagógico.

Conta-se que uma professora, portadora de doutorado e ocupante de função especial na Secretaria de Educação, foi removida de seu posto para desempenhar a nobilíssima, porém singela tarefa de vigiar recreios e substituir eventuais faltas docentes numa escola de distrito.

Não discutimos aqui a dignidade do recreio — esse momento sagrado em que as crianças testam a gravidade da Terra correndo atrás de bolas e sonhos. Mas há de convir o leitor sensato que deslocar um doutorado para tal missão lembra menos um ato administrativo e mais um exercício estético.

Talvez estejamos diante de uma nova escola de gestão pública. Chamemo-la cubismo administrativo.

No cubismo pictórico, tão associado a Pablo Picasso, as figuras são decompostas em planos estranhos, de modo que um rosto pode conter três narizes e dois perfis simultâneos. Aplicado à burocracia educacional, o método parece produzir fenômeno semelhante: diretores viram apoio escolar, especialistas tornam-se vigilantes de recreio e o organograma passa a lembrar uma natureza-morta montada às pressas.

Dirão alguns críticos iniciados — desses que sempre aparecem para explicar o inexplicável — que tudo não passa de estratégia sofisticada de reorganização institucional. Haverá notas técnicas, discursos administrativos e talvez até relatórios que descubram profundas intenções pedagógicas na troca de funções.

O público, entretanto, reage como o visitante de certas exposições modernas: sai da sala com a estranha sensação de que ou perdeu alguma genialidade oculta… ou está sendo habilmente mistificado.

Convém, portanto, deixar aqui um pequeno dilema administrativo.

Ou esta redistribuição de talentos inaugura uma nova e brilhante escola de gestão educacional, diante da qual todas as antigas práticas administrativas devem pedir humildemente desculpas… ou talvez estejamos apenas assistindo a mais um daqueles experimentos em que o talento é deslocado não por estratégia, mas por capricho.

Seja qual for a resposta, uma coisa é certa: quando um doutorado troca a mesa de planejamento pelo apito do recreio, o observador sensato tem todo o direito de perguntar se está diante de uma genialidade incompreendida… ou apenas de mais um quadro cubista pintado na parede da administração pública.


(*) Israel Marazaki — fiscal por instinto, cronista por raiva e sentinela por missão

Imagem gerada por IA

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