Uma geração obstinada, ensinada a contornar os obstáculos com coragem e determinação, sem esmorecer jamais
Os moicanos eram tribos nativas que habitavam a região nordeste dos Estados Unidos, antes da colonização europeia. Ostentavam penteado característico em forma de topete pronunciado, que além da estética peculiar ainda representava bravura, força e identidade cultural. Assim também acontece no século 21 nesse alienado País que tem por hábito cultuar sobejamente futebol, carnaval e uma infinidade de babaquices, guardadas as devidas proporções de tempo, intenções e contexto histórico. A última geração de brasileiros natos “já passados dos 60” se encaminha para seu ocaso, amofinada pelas novas tendências comportamentais que impressionam pela inconcebível ausência de educação e respeito.
Os idosos da atualidade, outrora jovens exuberantes e destemidos sentem no invólucro temporário os efeitos da implacável passagem do tempo, sendo que a imensa maioria necessita de revisão periódica ou reparos emergenciais. Essa é a sina daqueles que ousaram nascer em outro século, crescer ouvindo os conselhos paternos e a enfrentar a crueza natural da vida. Os últimos dos moicanos daqui tiveram o privilégio de vivenciar um rosário de dificuldades, que lapidaram o caráter e formaram homens e mulheres resilientes, honestos e trabalhadores. Uma geração obstinada, ensinada a contornar os obstáculos com coragem e determinação, sem esmorecer jamais. Que conviveu com todo tipo de privação, retirando resolutamente as pedras que apareciam pelo caminho, apesar dos empecilhos e da reduzida disponibilidade de recursos daquela saudosa época.
Esses respeitáveis anciãos, hoje considerados como “ultrapassados” por conta de suas eventuais limitações físicas e intelectuais ajudaram a construir o futuro dessa nação. A maioria vivia no campo e foi educada e conduzida desde a mais tenra idade na lida diária, estimulados a enfrentar e superar os desafios corriqueiros. Até por conta da necessidade, os pequenos assimilavam perfeitamente a percepção de direitos e deveres e ainda, de valores morais indispensáveis para a convivência em sociedade.
A geração que se finda carregava ingenuidade e inocência. Tinha o costume de acompanhar os terços, pedir bênçãos aos pais, tios e avós. Brincava de passar anel, bola queimada, betis, pega-pega, bolinha de gude, peteca, esconde-esconde, cabra cega. Utilizou por muito tempo o telefone público conhecido como orelhão, que funcionava com fichas metálicas. Curtiu o escurinho do cinema mascando chicletes Ploc e Ping Pong. Sentiu o ardor da fumaça da lamparina nos olhos, a serventia do sabão caseiro, o aroma inconfundível da banha de porco na panela de ferro. Suas roupas e calçados eram utilizados com cuidado e repassados para os irmãos menores, assim como o reaproveitamento de livros e cadernos escolares. Somente em época de Natal havia guloseimas à vontade para a molecada e isso era motivo de muita alegria. Não se reclamava do cardápio simples, mas se agradecia pelo abençoado alimento à mesa.
Tudo isso foi internalizado como aprendizado, porque se respeitava a hierarquia familiar e os pais impunham imprescindíveis limites, situação completamente diferente da atualidade. Os “60, 70 ou 80 mais” são vencedores porque nasceram, cresceram e viveram na época analógica e hoje se aventuram com sucesso na tecnologia digital. Infelizmente, seus incontáveis exemplos de resiliência, honestidade e retidão de caráter são ignorados por uma juventude que apresenta dificuldades para alcançar a maturidade emocional. Enfim, nós moicanos temos mil e um motivos para, vez ou outra, deixar a nostalgia invadir a alma. Resta, portanto, a certeza da missão cumprida. Um brinde aos valorosos últimos dos
moicanos!
(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR
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