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Como combater o ódio

Há cerca de uma década, assistimos à retomada de uma polarização que parecia perder força

Antes de qualquer debate acalorado nas redes sociais, convém olhar para um dado incômodo. Segundo o Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf), pesquisa conduzida pelo Instituto Paulo Montenegro em parceria com a Ação Educativa, apenas 8% dos brasileiros conseguem interpretar adequadamente um conteúdo publicado; somente 6% sabem diferenciar fato de opinião; e 29% dos adultos são analfabetos funcionais – leem, mas não compreendem plenamente o que leem. Antes de apontarmos o dedo para o “absurdo” do comentário alheio, é preciso reconhecer o terreno frágil sobre o qual estamos discutindo.

Há cerca de uma década, assistimos à retomada de uma polarização que parecia perder força. Ressurgiram embates envolvendo raça, gênero, classe social, ideologias, religiões e por aí vão. O que antes estava contido por certo constrangimento social ganhou palco, curtidas e compartilhamentos. Uma parcela barulhenta, que talvez se mantivesse à margem por falta de espaço, encontrou nas mídias digitais um megafone potente. A cultura do ódio, antes envergonhada, passou a se apresentar com orgulho.

Nesse ambiente, a disseminação de fake news prospera. Informações falsas circulam com velocidade impressionante, explorando emoções primárias: medo, indignação, ressentimento. Cria-se um processo de dissonância cognitiva, sobretudo em quem já possui limitações de interpretação ou acesso precário a fontes confiáveis. Em ano eleitoral, o fenômeno se intensifica. Mentiras repetidas à exaustão ganham aparência de verdade. A repetição não transforma erro em fato, mas o torna familiar – e o que é familiar tende a parecer verdadeiro.

No livro “Tribos Morais”, do neurocientista norte-americano Joshua Greene, está uma questão interessante. Segundo ele, nossas decisões não são guiadas apenas pela razão, mas por instintos morais ligados ao grupo ao qual pertencemos. Evoluímos para proteger nossa “tribo”, não para buscar a verdade objetiva. Assim, quando lemos algo que desafia nossas crenças, nossa reação automática não é compreender, mas defender nossa identidade. O debate deixa de ser sobre ideias e passa a ser sobre pertencimento.

Quando somamos esse impulso tribal às limitações de interpretação apontadas pelo Inaf, o cenário torna-se ainda mais preocupante. O resultado são discussões rasas, polarizadas, marcadas por ruído constante e pouca construção de conhecimento. Muitas brigas virtuais não fracassam por falta de informação, mas por ausência de compreensão e de ânimo para refletir com profundidade. Debate exige escuta, leitura atenta e capacidade de distinguir opinião de evidência.

Talvez, antes de responder ou atacar, a pergunta mais madura seja: estou dialogando com alguém disposto a examinar ideias ou apenas reagindo para defender minha própria tribo? Essa reflexão muda nossa postura. Nem toda provocação merece resposta; nem toda divergência exige confronto público. Em certos casos, o silêncio estratégico é mais eficaz do que a réplica impulsiva.

Nada disso significa renunciar à liberdade de expressão. Ao contrário: liberdade não combina com imposição de ideias, mas com responsabilidade. Argumentos sólidos, baseados em dados verificáveis, apresentados em linguagem clara e respeitosa, ampliam horizontes. Gritos e ofensas apenas reforçam muros.

A única resposta estrutural para esse ciclo é educação de qualidade. Educação que ensine não apenas a ler palavras, mas a interpretar contextos; não apenas a opinar, mas a fundamentar; não apenas a discordar, mas a respeitar. Informação circunstanciada, em linguagem simples e direta, provoca reflexão. E reflexão é antídoto contra manipulação.

Temos responsabilidade individual nesse processo. Antes de compartilhar, verificar. Antes de acusar, compreender. Antes de impor, dialogar. Mostrar, com inteligência emocional, que versão não é fato. Apresentar conteúdos lógicos e confiáveis para que cada pessoa possa pensar e escolher sem pressão.

Em tempos de polarização intensa, maturidade cívica é ato de coragem. Defender a verdade exige menos barulho e mais consistência. Se quisermos uma sociedade menos fragmentada, precisamos começar pelo básico: compreender o que lemos, questionar o que sentimos e lembrar que, acima de qualquer tribo, está o compromisso com a realidade.


(*) Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura; membro da Academia Paulista de Educação e conselheiro da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial; autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro eO sol brilhou à noite. Apresenta pela TV Cultura, aos domingos, às 10h30, o programa “Brasil, mostra a tua cara!”.

Foto: Andre Hunter/Unsplash

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