Mais do que premiações, o cinema brasileiro mostrou sua potência cultural e econômica: gera uma cadeia produtiva, empregos, renda e circulação de ideias
Tem gente comemorando o fato de o Brasil não ter levado o Oscar, leia-se a extrema direita. A mesma que despreza a cultura, a intelectualidade, as artes e o pensamento crítico, a mesma que ataca universidades e centros de produção de conhecimento. São os que batem continência, se dizem patriotas, mas hasteiam bandeiras americanas e de Israel e amam quem os “USA”. São os mesmos patriotas que tiram fotos em frente à estátua da liberdade fake, exaltam empresários de índole duvidosa como heróis e atacam professores. Movem-se menos pela convicção e mais pelo medo da própria ignorância e pelo ódio ao que não compreendem.
Enquanto isso, o cinema nacional foi gigante, ombreou os maiores do mundo e colocou Wagner Moura no palco do maior evento cinematográfico do planeta, o Academy Awards. Mostrou o “molho” do baiano, apresentando o Brasil ao mundo (já diziam os Novos Baianos “O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada, andou dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato”). Além disso, exaltou a grandeza do Recife e suas tradições populares como a lenda da Perna Cabeluda, não se eximindo em tocar nas nossas feridas ainda abertas: como a história ainda pouco passada a limpo em torno da ditadura militar e seus diversos aspectos, como a sua face empresarial e interferência nos meios acadêmicos. Mais do que premiações, o cinema brasileiro mostrou sua potência cultural e econômica: gera uma cadeia produtiva, empregos, renda e circulação de ideias.
Desde o sucesso de “Ainda Estou Aqui”, produziu-se algo raro no país: uma mobilização de milhares de pessoas que lotaram bares, praças, interditou ruas históricas em Olinda, São Paulo, Rio e reuniu gente em torno da cultura. Ontem, aqui mesmo em Maringá, o fenômeno se repetiu com a torcida pelo filme “O Agente Secreto”, vários bares que apreciam e valorizam a cultura estavam cheios em pleno domingo à noite, gerando renda, receita, sociabilidade e um verdadeiro orgulho nacional. Um clima de fim de copa do mundo, um fenômeno gigante e paradigmático em um país com um atraso histórico na educação e na valorização das artes e da cultura.
A cultura é onde um país se enxerga, se questiona e se reinventa. Talvez por isso incomode tanto quem tem medo de pensar.
Foto: Vitor Jucá/Divulgação
