Manifestos repudiam Moro na Unespar

Em Paranavaí, universidade estadual abre espaço em aula magna para ex-juiz conhecido pela nulidade de seus atos jurídicos e que virou político e é pré-candidato a governador

O anúncio de que o senador Sergio Moro (União Brasil) fará a aula magna do curso de Direito na sexta-feira às 8h30 na Universidade Estadual do Paraná (Unespar), em Paranavaí, gerou ao menos dois manifestos de repúdio. O tema da palestra da instituição pública que abriu espaço para um pré-candidato a governador é “Excessos do controle judicial de constitucionalidade pelo STF”.

O ex-juiz federal maringaense e ex-ministro da Justiça é apontado numa das notas como “uma figura cuja trajetória pública está profundamente marcada por nulidade de seus atos jurídicos, controvérsias políticas que impactaram diretamente a estabilidade democrática do país representa uma escolha que exige reflexão crítica e responsabilidade por parte da comunidade acadêmica. O ex-juiz, responsável pela Operação Lava Jato, protagonizou atos amplamente rechaçados no Brasil e no exterior, ao violar a lei e ao exercer parcialidade na magistratura. O seu modus operandi utilizou prisão provisória como instrumento de tortura, sendo vítima vários empresários e também políticos”.

Também professores da Unespar-Paranavaí, em assembleia-geral organizada pela Sindunespar, na semana passada, tornaram público seu repúdio à realização da aula magna com a presença do político. Sua presença na aula magna, “que não é um evento qualquer”, para o sindicado é profundamente incompatível com o projeto de universidade pública que os docentes defendem. “Reafirmamos que a Unespar, como universidade pública, deve se orientar por princípios pautados nas liberdades democráticas, pluralidade e na defesa dos direitos fundamentais. É a esses valores que uma Aula Magna deve servir”, diz a nota. Confiram os dois manifestos de repúdio ao ex-juiz federal:

MANIFESTO DE REPÚDIO À PRESENÇA DE SERGIO MORO NO CURSO DE DIREITO DA UNESPAR PARANAVAÍ – Nós, cidadãos e membros da sociedade comprometidos com a defesa da universidade pública com pensamento crítico, manifestamos nosso veemente repúdio à realização de palestra com Sergio Moro no curso de Direito da Universidade Estadual do Paraná (Unespar-Paranavaí).
A universidade pública é espaço reconhecido de pluralidade e debate qualificado. No entanto, convidar uma figura cuja trajetória pública está profundamente marcada por nulidade de seus atos jurídicos, controvérsias políticas que impactaram diretamente a estabilidade democrática do país representa uma escolha que exige reflexão crítica e responsabilidade por parte da comunidade acadêmica.
O ex-juiz, responsável pela Operação Lava Jato, protagonizou atos amplamente rechaçados no Brasil e no exterior, ao violar a lei e ao exercer parcialidade na magistratura. O seu modus operandi utilizou prisão provisória como instrumento de tortura, sendo vítima vários empresários e também políticos. Combater crime sim, mas não se combate crime, praticando crime e corrupção.
Posteriormente, ao assumir o cargo de ministro da Justiça logo após a eleição do candidato que foi diretamente beneficiado pelo caos político criado pelas suas decisões da Lava Jato, Moro escancarou a sua má índole, dando certeza que sua atuação judicial foi por interesses políticos e projeto pessoal de poder. Esse percurso torna sua presença em um espaço formativo do Direito algo que precisa ser contextualizado criticamente, e não tratado como exemplo professoral de saber jurídico.
Não se trata de negar o debate. Pelo contrário: universidades existem justamente para promover reflexão crítica. O problema reside na presença de figuras públicas não dignas de uma aula magna em um curso de Direito da Unespar. A comunidade acadêmica merece discussões profundas sobre ética judicial, garantias constitucionais e os limites da atuação do sistema de justiça – temas que Moro ofendeu em sua trajetória.
Por fim é importante rechaçar a instrumentalização política de espaços universitários. Instituições públicas de ensino não podem ser transformadas em palco para legitimação e reabilitação de projetos políticos cuja atuação é contra o bem público. Deste modo, estendemos a crítica ao governo do Paraná, sob liderança de Ratinho Jr., que reiteradamente adota posturas que fragiliza o diálogo com a comunidade universitária e ignora os princípios de autonomia da universidade pública. A valorização da universidade passa pela defesa da educação pública e não pelo projeto neoliberal de sucateamento e privatização de órgãos públicos.
Por uma universidade que forme juristas cidadãos comprometidos com a democracia e não com narrativas políticas.
MOÇÃO DE REPÚDIO – A Assembleia Geral dos docentes da Unespar, organizada pela Sindunespar, reunida em 11 de março de 2026, manifesta seu repúdio à realização da Aula Magna organizada pelo curso de Direito do Campus de Paranavaí da Unespar com a presença do senador Sergio Moro.
Entendemos que a escolha dessa figura pública para ocupar o lugar simbólico de uma Aula Magna é profundamente incompatível com o projeto de universidade pública que defendemos: uma universidade radicalmente democrática, autônoma, comprometida com o pensamento crítico e com a promoção incondicional dos direitos humanos.
Uma Aula Magna não é um evento qualquer. Trata-se de um momento em que um curso se apresenta à comunidade acadêmica e à sociedade, explicitando os valores que pretende cultivar na formação dos seus estudantes. No caso de um curso de Direito de uma universidade pública, esse gesto institucional deve estar ancorado na defesa da democracia, do pluralismo, das garantias fundamentais, do combate às desigualdades e do compromisso com a transformação social. Sergio Moro não representa esses valores e não merece receber da Unespar esse lugar de validação institucional.
A trajetória pública de Sergio Moro é alvo de duras e consistentes críticas por amplos setores do campo democrático e dos movimentos populares. Entre elas, destacam-se a sua atuação marcada pela parcialidade judicial, o papel exercido na criminalização seletiva da política, a associação de sua imagem à lógica do lawfare, a colaboração indevida com práticas que fragilizaram garantias constitucionais e, ainda, sua posterior vinculação direta a um projeto político de extrema direita, ao assumir o Ministério da Justiça do governo Jair Bolsonaro, que tanto perseguiu trabalhadores da educação pública. A própria atuação de Moro na Lava Jato foi posteriormente deslegitimada por decisões do Supremo Tribunal Federal.
Reafirmamos que a Unespar, como universidade pública, deve se orientar por princípios pautados nas liberdades democráticas, pluralidade e na defesa dos direitos fundamentais. É a esses valores que uma Aula Magna deve servir. É a partir deles que a universidade deve se apresentar à sociedade. Assembleia Geral dos Docentes da Unespar. 11 de março de 2026.

Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado