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A águia que punha medo no povo da roça

A harpia (acima, no Parque das Aves, em Foz), que pairava sobre as florestas do norte e noroeste paranaense, capturava e carregava nas garras animais de até dez quilos, mas crianças que andavam sozinhas pelos terreiros poderiam se tornar presa da enorme ave de rapina

Com até dois metros de envergadura, uma ave que chamavam de águia, sobrevoava acima da floresta. Aproximava-se dos terreiros em busca de porcos, galinhas e até cachorros. Abria as enormes asas, dava um rasante, apanhava a presa e a carregava enganchada nas garras afiadas. Animais com até dez quilos faziam parte do cardápio. Os agricultores ficavam apavorados. Medo de que alguma criança saísse de casa e “aquele bicho voador” a capturasse. As mães as impediam de andar sozinhas, mas o perigo persistia.

A cena se passava no norte e noroeste do Paraná nas décadas de 1940 e 1950. Aquele pássaro temido era a harpia, a maior águia das Américas, conhecida também por gavião-real, o nome científico dela é Harpia harpyja. Por algum tempo, ela habitou todo o território brasileiro. Mas devido ao desmatamento e à caça ilegal, hoje é encontrada na Amazônia, e com menos frequência na Mata Atlântica e Pantanal. O medo é por causa do tamanho, mas ataques a humanos são raros. Podem ocorrer se tiverem com filhotes e falta de presas para se alimentarem. Na Guiana Francesa, em 2023, um caso foi documentado. Uma harpia atacou uma turista pelas costas, causando ferimentos médios.

Membros da família Vinholi exibem a harpia que Eugênio abatera. Da dir./ p/ esq.: Ilso, Iria, Inalda, Itamar (na frente), Élcio, Raul, Osvaldo e Augusto Borali. Agachados: Irineu e Ervânio. (Foto: Acervo da família)
Uma versão colorizada da foto

Marcelo Vignoli Arnal, cujos parentes, nos anos 1940, moravam num sítio no atual município de Cambira, conta a história da foto que ilustra esta página. O tio-avô dele, Eugênio Vinholi abateu uma harpia com medo de ela capturar crianças no terreiro da casa dele. Munido de uma espingarda carregada pela boca, acertou-a em um alto galho. Ela caiu, e ele terminou de matá-la. “Para proteger os pequenos, ele agiu antes que o pior pudesse acontecer”, relata Arnal, enviando uma foto de uma peroba, que os avôs e tios dele derrubaram no mesmo sítio. Para mostrar o tamanho da floresta que havia por lá.

Mas as harpias podem estar voltando às paisagens paranaenses. É o que confirmou o fotógrafo e observador de aves Francisco Hamada, em Coronel Domingos Soares, na região sudoeste do Paraná. Em 2020, ele caminhava por um local de mata e viu algo que parecia uma águia-pescadora, mas logo percebeu se tratar de uma harpia. “Ela estava de costas e de repente virou para a câmera. Foi quando gritei: ‘Harpia, harpia! Não pode ser, não existe harpia por aqui”, disse ao Portal G1. O ornitólogo e especialista em ave de rapina William Menq afirmou ao mesmo site que a harpia ocorria em quase todo o Brasil, do sul da Bahia, ao Rio Grande do Sul e Paraná. “Porém, nas últimas décadas, devido à intensa fragmentação e erradicação das florestas, ela desapareceu de várias regiões”, afirmou.

Quem sabe chegará o dia em que a veremos de volta cruzando os céus do norte e noroeste do Paraná. Desta vez, será observada, fotografada e filmada com postagens nas redes sociais. Afinal, encontrar harpia é um troféu para quem observa aves. Avante, observadores, em busca de avistá-la por aqui. A mesma águia que outrora trazia pânico aos agricultores.

A mata no norte e noroeste do Paraná era fechada com perobas como esta que exigiam dez machadeiros para derrubá-la (Foto: Acervo da família)
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