As crônicas do velho Graça

Em tempos bicudos, cuja tônica é o míssil ou o drone que atingiu o alvo na guerra de Trump contra o Irã, é de bom grado sossegar a mente

Acabei de ler uma edição, de 1962, de “Viventes das Alagoas”, do genial Graciliano Ramos, publicada pela Livraria Martins Editora. O livro é um apanhado de crônicas que retratam os personagens, a paisagem do sertão nordestino e o ambiente das pequenas cidades. No final, há um relatório da época em que Graciliano fora prefeito do município de Palmeira dos Índios, em Alagoas. Mesmo escrevendo sobre detalhes burocráticos, sem importância, a leitura se torna interessante com seu estilo seco e envolvente. Que busca um algo mais escondido e o aborda de forma peculiar, aguçando a curiosidade do leitor.

Por exemplo, na parte em que fala dos projetos da prefeitura de Palmeira dos Índios, diz: “tenho vários, de execução duvidosa”. Qual relatório público iria admitir fracasso? Quem ler a primeira linha quer saber mais. Que projetos são esses cuja execução é duvidosa? Ao falar dos impostos, ele se refere aos contribuintes como “pobre povo sofredor”. Diz que alguns querem benefícios, mas alegam que impostos devem ser pagos pelos outros. As denúncias sociais afloram em cada abordagem. A crônica “Um homem notável” revela que o sujeito tinha duas qualidades: era branco e analfabeto.

Na sequência, afirma: “Se não fosse branco, nivelar-se-ia à canalha da roça, mais ou menos cabocla, mais ou menos preta, sentir-se-ia pequeno, disposto à obediência”. Munidos de fina ironia, os textos capturam o leitor. Do começo ao fim. “Para a realização de casamento há solenidades curiosas no interior do Nordeste”. Inicia a crônica “Casamentos”. Descobrir que curiosidades são essas me faz seguir atento às linhas e entrelinhas.

Em tempos bicudos, cuja tônica é o míssil ou o drone que atingiu o alvo na guerra de Trump contra o Irã, é de bom grado sossegar a mente. As crônicas de Graciliano Ramos são um bálsamo para nosso cérebro arredio e acelerado. “Está aberta a sessão do Júri”, vem coisa por aí. Quem será o réu, logo penso. Volto às páginas e deparo com “Dr. Pelado”. Quem é este senhor? Certamente, mais um personagem enigmático, que merece atenção. Daí o prazer em degustar os escritos do velho Graça. Uma mistura de literatura e jornalismo que resulta em ótimas crônicas de costumes.