Ao se ultrapassar determinados limites, o inseparável aliado acaba estimulando também o desenvolvimento de patologias sociais
Houve uma época em que o estudo da anatomia humana dividia o corpo em três partes principais: cabeça, tronco e membros. O tempo passou e a tecnologia se entranhou na mente e no corpo das pessoas, a ponto de representar uma parte física palpável do envoltório humano, passível inclusive de análises científicas. Mantida permanentemente na palma da mão, essa particularidade é conhecida por sua elevada capacidade de alienação e atinge todas as faixas etárias sem distinção de etnia, credo religioso ou estrato social. Em todo canto existe alguém a manipular o aparelho de tela colorida. O problema se mostra um tanto mais complexo, uma vez que motociclistas e motoristas manuseiam tranquilamente o aparelho em deslocamentos como se estivessem no sofá da sala, elevando potencialmente o risco de acidentes de trânsito.
Não é exagero afirmar que o smartphone já integra nosso corpo, mas principalmente a mente, o espírito. Tornou-se um membro avulso itinerante, pulsante, vivo, estupidamente incômodo em algumas oportunidades, porém indispensável na correria diária da imensa maioria das pessoas. Não há absolutamente nada, ou quase nada que não se faça através dele. Essa condição o transformou em componente de porte obrigatório em nossa vida. È inegável, portanto, a constatação de que nossa existência poderia ser dividida entre o antes e o depois da chegada dessa incrível tecnologia. Ocorre que ao se ultrapassar determinados limites, o inseparável aliado acaba estimulando também o desenvolvimento de patologias sociais. Isso é facilmente observado em pessoas que, mesmo estando na presença de amigos ou familiares, preferem se relacionar com contatos virtuais. É necessário procurar ajuda especializada quando o impulso em conferir novas mensagens se torna insustentável, afetando diretamente a qualidade de vida e a produtividade laboral do usuário.
A total incapacidade do ser humano em se distanciar, pelo menos temporariamente de um smartphone é fundamentada no fato de que nossa vida está literalmente dentro daquela pequena máquina. Contatos profissionais, pessoais e familiares, aplicativos bancários, de música, de gastronomia, enfim, nos tornamos parte ativa da simbiose tecnológica que envolve a mente humana e a memória digital. Essa condição de dependência afeta principalmente nossa capacidade de discernimento, porque elegemos a tecnologia para o trabalho pormenorizado, quando habitualmente deixamos de exercitar positivamente o intelecto ao delegar incontáveis atribuições mentais ao companheiro fiel. Como ensina o antigo ditado, “tudo o que não se usa, enferruja”. Assim ocorre também com nosso cérebro, que ultimamente vem sendo preterido, mesmo em tarefas básicas e essenciais do cotidiano. Muito provavelmente perderemos gradativamente a capacidade em resolver equações básicas e solucionar problemas triviais, por conta da inatividade criativa.
Atribuímos ao telefone celular o status de “Sua santidade” e idealizamos nele o porto seguro para a resolução de todos os problemas. Desprezamos as conquistas evolutivas ao suprimir a essência da vida que é o pensamento crítico, retroagindo a níveis mínimos de inteligência. Tudo por uma máquina descartável, composta por polímero e metal, mas que em seu bojo carrega aspirações, necessidades, desejos, angústias, sentimentos únicos do primata inteligente. Definitivamente, é hora de refletir sobre o futuro. Enquanto há tempo.
(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR.
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