Mesmo que você não vá ao Xingu, leia-o porque de fato é uma flecha no coração
Lançado em 1985, “Xingu – uma flecha no coração”, editora Brasiliense, é um relato vivo, daqueles em que a gente sente os personagens e a paisagem. De forma cru, sem rodeios, o jornalista Washington Novaes transformou sua viagem ao Parque Nacional do Xingu, em 1984, num diário, que virou livro. Ele e uma equipe foram até lá produzir um documentário intitulado “Xingu: A Terra Mágica”, que seria exibido pela antiga Rede Manchete. Como todo bom jornalista, ele não perdeu tempo. Registrou tudo em um caderninho. As tradições, a alimentação e até os hábitos mais simples dos indígenas.
Com mais de 25 mil quilômetros quadrados, abrigando 16 etnias indígenas, o Xingu é mais que um espaço dos povos originários. É um santuário a céu aberto que, desde àquela época, está ameaçado por grandes produtores rurais e seus plantios sem fim. Em 310 páginas, ele descreve o dia a dia das aldeias. O rapazinho adoentado que perde a noção de onde está e foge para o mato. Os pajés se reúnem para expulsarem o espírito que o atormenta. Uma batalha que se trava com longos pitos que exalam fumaça. A mulher que grita com as dores do parto, vai nascer mais componente da tribo. Ou os meninos que passam pelo teste da maioridade. Formam uma fila; os adultos lhes perfuram a pele com carcaças de peixes.
O baixo e alto Xingu e seus povos. Waurá, Kuikuro, Txukarramãe, Iawalapiti são alguns deles. Aos trancos e barrancos, a equipe se doou para produzir as imagens e concluir o documentário. Dormindo em redes, enfrentando nuvens de mosquitos, geradores que falham, barcos cujos motores cansados apagam no meio no rio. As distâncias que desanimam os viajantes. Enfim, uma batalha diária que cai sobre as páginas de “Xingu, uma flecha no coração”. As imagens no documentário; as imagens na escrita seca e direta de Novaes, que também revelam cenas aos leitores.
Vale a pena ler. É um livro antigo, cujos exemplares se encontram em sites especializados. O meu custou R$ 20,00. Mesmo que você não vá ao Xingu, leia-o porque de fato é uma flecha no coração. Estou programando uma viagem ao Xingu, e espero que ao menos algumas coisas tenham mudado por lá. Afinal, nossos índios merecem sempre mais. Porque aprendemos com eles, mesmo que sejamos maus alunos, a ponto de não sentir a flechada no coração dos povos originários. A flechada que ignoramos…
