Ícone do site Angelo Rigon

Enfim, fui para Cuba!

Sem combustível, com apagões constantes, quem em sã consciência vai fazer os passeios? Hoje, visitar Havana é ajudar na sobrevivência desse povo

“A gente precisa se ocupar para não precisar se preocupar”. Acho que essa foi uma das frases que mais marcou, no período que estive em Havana. Por lá, conversei com inúmeras pessoas. Nas ruas, nos bares. E, de fato, creio que o ócio seja desconcertante para quem está tendo que viver aquela realidade. Ainda mais, com as recentes investidas de Donald Trump contra a ilha. Seja nos discursos, seja nos novos e antigos embargos.

Cuba foi o país mais peculiar que eu já visitei. Digo isso porque voltei ao Brasil com uma sensação diferente. Não de ter conhecido um país, mas de ter conhecido um povo. Uma cultura. Então, conversar com as pessoas era muito mais interessante do que visitar grandiosas estruturas de igrejas, praças e museus. Do culto aos heróis da pátria, antes mesmo da revolução, nas homenagens a Carlos Manuel de Céspedes e José Martí, por exemplo, na voz de um local, aos passeios públicos e suas histórias. É tudo elucidador para entender como a resistência se tornou um estilo de vida.

De fato, andar pelas ruas de Vedado ou de Havana Central é incômodo. Os prédios se assemelham a sítios de guerra. Destruídos. Sujos. Insalubres. O que nos leva a uma concepção de velhos livros lidos que saltam aos olhos: embargos e guerras podem ser igualmente destrutivos. O povo cubano, um povo trabalhador, não merecia tamanho castigo. Em Havana Vieja, por outro lado, praças limpas e bem preservadas. Espaços cuidados pela Unesco, o que me leva a indagação: se a comunidade internacional pode cuidar de praças, porque diabos, nesse caso, não intervém em favor das pessoas?

Quando cheguei em Havana, eles já estavam com a crise dos combustíveis. O país tem capacidade de produção de apenas 40% do petróleo que é necessário. Situação difícil para quem vive lá, na incerteza dos transportes coletivos, e mais um disparo contra a motriz econômica do Estado, o turismo. Sem combustível, com apagões constantes, quem em sã consciência vai fazer os passeios? Hoje, visitar Havana é ajudar na sobrevivência desse povo. Pode ser difícil, em alguns momentos, mas é necessário.

Em Varadero, no litoral norte da ilha, um resort cuja média de público diária era de 600 pessoas, estava operando com apenas 15 ou 20 hóspedes. As ruas da badalada cidade cubana estavam vazias. Parecia uma pandemia. E a gente pensava a cada parada. A cada conversa: como essas pessoas farão daqui em diante? No interior a vida parecia mais comum, mas não menos sofrida. Em Viñales, pequenas feiras de artesanato se desdobravam entre os poucos turistas e as Fincas de Tabaco com pouquíssimos visitantes, não conseguindo vender o pouco que sobrava de sua produção inteiramente artesanal. Uma arte, temo agora, que esteja se findando.

Senti raiva do governo brasileiro. Senti vergonha de não poder dizer a ninguém de lá que estávamos fazendo algo por eles. Poderíamos fazer mais. Quando o Brasil precisava de médicos, nossos irmãos da ilha estavam aqui. Cuidaram de brasileiros e brasileiras que estavam doentes no interior do Brasil. Dizia a todos que conhecia, envergonhado, “o Brasil pode fazer mais por vocês. O Brasil deve fazer mais por vocês”. Infelizmente, palavras vindas de um mero jornalista tinham o impacto tão pequeno que chegavam a ser vazias. Não de ânimo ou desejo, mas de efeito prático. Se Lula soubesse como é visto pelo povo cubano, talvez tivesse um pouco mais de carinho.

Andando pela Calle Obispo, vi o senhor Rolando. Pouco mais de 60 anos, postura curvada. Ele estava com um boné do MST e, na lateral, as escritas “Estou com Lula”. Qual minha surpresa quando o chamei e ele respondeu em português. Durante 3 anos ele ficou em Angola, a pedido do regime Cubano, para junto a Agostinho Neto barrar as investidas do Apartheid na África do Sul ao restante do continente. Pediu alguns minutos para falar em português, para não esquecer a língua. Falava de Fidel com paixão. Falava de Lula com entusiasmo. Hoje, trabalha para o governo e faz bicos como pintor e “faz-tudo”. No fim da conversa, me abraçou com força.

Apesar da situação precária, o cubano estava se ocupando. E mesmo com a Reuters mostrando para o mundo um recorte de cenário vulgarmente insólito, a palavra das pessoas trazia um pouco de aconchego apesar da dor. Uma moeda desvalorizada, que mal garante a eles a compra do pão, estrangulando as refeições e subsistência, mas eles seguem trabalhando. E quando perguntei como eles conseguem viver assim, a simplicidade da resposta chegava a ser poética: “É difícil, mas não nos importamos em compartilhar”.

E enquanto o mundo ataca ou negligencia a ilha, o cubano, pelo menos a mim, ensinou a ter um pouco mais de humanidade. Por que é na dificuldade que se mede a grandeza do ato. Seja a sobrevivência, seja a resistência. Por fim, os dizeres que estavam em um outdoor na estrada, a caminho de Piñar del Rio, “La palabra enseña, el ejemplo guía”. ¡Hasta la victoria, siempre!

Fotos: Mariana Kateivas

Sair da versão mobile