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De dependentes a interditados

Que não tenhamos Alzheimer político, a ponto de sermos interditados na democracia

Entre os mamíferos, os seres humanos , pertencentes à classe Mammalia, ordem dos primatas e espécie Homo sapiens, são os que mais tempo dependem dos pais ou de terceiros para sobreviverem até se tornarem, ‘independentes’. O entre aspas é porque nunca seremos totalmente independentes, pois fomos criados para a vida em sociedade, e nela dependemos uns dos outros.

A inspiração para esta reflexão, surgiu lendo a matéria, na Folha de São Paulo, sobre  a decretação da interdição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de 94 anos, por seus três filhos, motivada pelo agravamento do quadro de Alzheimer, doença em estado avançado. Diz a matéria, em resumo:

‘Com a decisão, Paulo Henrique Cardoso passa a ser o curador provisório do pai. Caberá a ele responder pelos atos civis e pela vida financeira e patrimonial do ex-presidente. A informação foi publicada  em o Globo e confirmada pela Folha [de S. Paulo]. A família e a Fundação FHC afirmam que não vão comentar o assunto, que é “estritamente de foro íntimo”. A petição foi  foi instruída com laudo médico que atesta o estado de saúde.

O pedido afirma que, diante do agravamento do Alzheimer, o ex-presidente tornou-se “incapaz para praticar os atos da vida civil”. O delicado quadro de saúde atual de FHC, e a confirmação de que os ora autores sempre foram os responsáveis pelos cuidados do pai, é igualmente atestada pelos depoimentos escritos apresentados por pessoas que mantêm, há décadas, íntima convivência com a família Cardoso”, diz o documento.

Na decisão, a juíza justifica a nomeação de Paulo Henrique pelos “sinais da confiança depositada pelo requerido ao ora nomeado, constando como seu procurador”. A situação de saúde comprometeria a validade das procurações outorgadas anteriormente  aos filhos, o que motivou o pedido de interdição. O documento traz ainda comunicações entre familiares e a equipe de assistência ao ex-presidente, como por exemplo para a compra de materiais de cuidados médicos, e anexa as procurações já existentes.

Fernando Henrique governou o país de 1995 a 2002. Após deixar a Presidência, não ocupou mais cargos públicos, mas permaneceu ativo no debate político, dentro do PSDB ou por meio de sua fundação. Mais recentemente, sua aparição pública de mais destaque ocorreu em 2022, quando declarou  voto no ex-adversário (Lula-PT) na disputa presidencial contra Jair Bolsonaro,(PL). Um vídeo com a declaração foi usado no programa eleitoral do petista na ocasião’.

Prossigo eu, lembrando de FHC como homem ativo, bem preparado, para mim o mais bem articulado presidente da república que tivemos desde a redemocratização em 1985, entre, Sarney, Collor, Itamar, Lula, Dilma, Temer, e Bolsonaro. Incomparável em relação a pelo menos um ou mais desses nomes. Ruth Cardoso, sua esposa, exerceu o papel de primeira dama com discrição e competência, certamente mais bem preparada que as demais.  Se seus dois governos foram os melhores, pode-se discutir, mas é inegável sua participação no Plano Real, idealizado e implementado em 1994, no governo Itamar, acabando com hiperinflação.

Como pode uma pessoa, assim, chegar ao fim da existência numa situação de completa de dependência, interditado pelos filhos, que foram seus dependentes e de Dona Ruth, que faleceu bem antes, de ficar dependente? O próprio FHC, foi dependente de seus pais e agora se vê, dos filhos, interditado.

Na existência física é inevitável. Todos somos dependentes no começo e, se chegarmos à velhice, muitos seremos, se não interditados juridicamente, dependentes de cuidados dos filhos, direta ou indiretamente, e de cuidadores profissionais, ou só caridosos.

Que tenhamos, com qualquer idade, a lucidez que teve FHC, pelo menos até 2022. O Brasil depende de nós. Que não tenhamos Alzheimer político, a ponto de sermos interditados na democracia. Usemos os dois lados do cérebro, o direito e o esquerdo, para escolhermos entre direita e esquerda, sem extremismos, o que for melhor.  

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