Por que a Emília está presa na biblioteca?

Emília não cabe na estante — e política pública não pode ser decorativa
O projeto Quartas Criativas é louvável. Cumpre seu papel, mas ainda é insuficiente. Ao se restringir às paredes da Biblioteca Especializada Infantil de Londrina, acaba por confinar o espírito de Monteiro Lobato — o que é, por si só, uma contradição.
Emília nunca foi figura de vitrine.
Em Memórias da Emília, ela pensa, questiona e desafia. A boneca de pano não aceita respostas prontas nem se curva ao conforto do óbvio. É, em essência, o pensamento crítico em estado puro. E o pensamento crítico, quando genuíno, é — como ela mesma diria — imorrível.
Biblioteca não é cárcere de ideias.
É por isso que o que hoje se reduz a “projeto” precisa amadurecer como política pública. Levar essa formação para o cerne das escolas municipais não é um luxo pedagógico — é uma urgência social.
Não como atividade eventual ou “evento de calendário”, mas como método, cultura e prática contínua.
Precisamos formar cidadãos que analisem o mundo, em vez de apenas consumi-lo mastigado.
Aqui cabe uma provocação respeitosa, mas firme, ao chefe do Executivo municipal: governar é, sobretudo, formar mentalidade. A juventude do gestor não pode ser álibi para o desconhecimento das raízes culturais ou das carências estruturais; deve ser combustível para romper com o assistencialismo cultural e fazer diferente.
No fim, a escolha que se apresenta à administração é binária e definitiva: Ou investimos agora na formação de crianças que pensam… Ou continuaremos administrando adultos que apenas repetem.
Convenhamos: Emília já escolheu seu lado faz tempo. Resta saber de que lado Londrina pretende ficar.
(*) Israel Marazaki — fiscal por instinto, cronista por raiva e sentinela por missão
Foto: Emerson Dias/NCom
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