O cálice do próprio veneno


O suposto esquema de “rachadinha”, tema que volta a assombrar a Câmara como um velho fantasma mal enterrado, é grave
Há quem diga que os grandes escândalos nascem em gabinetes fechados. Madame Savage discorda. Eles nascem, na verdade, no exato momento em que alguém acredita estar acima da própria coerência.
Nos corredores frios do poder, onde apertos de mão valem menos que mensagens apagadas, sopram ventos inquietos sobre uma distinta dama da política local. As recentes denúncias que recaem sobre a parlamentar não surpreendem os mais atentos observadores da corte maringaense. Afinal, os bastidores da política possuem mais máscaras do que um baile veneziano.
O suposto esquema de “rachadinha”, tema que volta a assombrar a Câmara como um velho fantasma mal enterrado, é grave. Gravíssimo. Principalmente em uma cidade que já viu nobres perderem títulos, prestígio e mandato pelas mesmas práticas. Contudo, caros leitores, talvez a verdadeira tragédia não esteja apenas na denúncia em si, mas na desconcertante metamorfose de sua protagonista.
Outrora conhecida por discursos técnicos, fiscalização aguerrida e debates de interesse público, a vereadora parece ter trocado a espada da seriedade pelo leque dos aplausos fáceis. Hoje, dança ao som da política dos likes, alimentando embates calculadamente polarizados contra o atual prefeito, numa coreografia que muitos já identificam como ensaio eleitoral antecipado.
Curioso, entretanto, como os salões do Paço Municipal outrora lhe eram tão receptivos. Portas abertas, livre trânsito, cargos comissionados, prestígios discretos e até aliados ainda acomodados em confortáveis poltronas administrativas, incluindo uma figura acadêmica de peso, indicada pela própria parlamentar, que segue intacta apesar do discurso oposicionista inflamado.
Mas nem mesmo os mais habilidosos estrategistas escapam do julgamento da opinião pública quando surgem acusações ainda mais delicadas. Entre elas, uma suspeita de assédio moral, ironia amarga para alguém que construiu parte de sua trajetória política justamente denunciando perseguições e abusos dentro do próprio partido.
Ah, a política… essa velha novela aristocrática onde vítimas podem virar algozes em apenas uma temporada.
Madame Savage relembra que a ascensão da vereadora nasceu de um movimento quase épico: barrada dentro da própria legenda, enfrentando lideranças partidárias e figuras influentes da universidade, ela transformou a rejeição em capital político e conquistou seu espaço após sucessivas derrotas eleitorais. Uma história de resistência que encantou muitos eleitores.
Talvez seja exatamente por isso que a decepção soe tão alta nos salões da cidade.
Importa dizer: até aqui, existem denúncias, não condenações. E numa democracia séria, o devido processo deve prevalecer acima dos gritos das redes sociais ou dos cochichos de corredor. O denunciante, aliás, manteve descrição rara em tempos de vaidade digital: recorreu à Justiça sem transformar o caso em espetáculo pessoal.
Como deve ser.
Que a parlamentar apresente sua defesa. Que os fatos sejam esclarecidos. E que a Justiça cumpra seu papel com serenidade e firmeza.
Porque na vida pública, caros leitores, existe uma regra que jamais envelhece:
quem escolhe viver apontando o dedo para todos precisa estar preparado para, um dia, vê-lo apontado de volta para si.
Daquela que não suas esconde suas mil e uma faces, Madame Savage.
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