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IA e eleições

A preocupação da Justiça Eleitoral com o uso indevido e desregulado da inteligência artificial não é exagero; trata-se da proteção da própria liberdade democrática

Existe uma pergunta simples, quase inocente, mas profundamente perturbadora: por que pensamos como pensamos? A maioria de nós acredita possuir convicções absolutamente livres, construídas de maneira racional e consciente. Mas basta um olhar mais atento para perceber que somos, em grande medida, frutos do ambiente em que vivemos, das experiências que acumulamos e das influências que recebemos ao longo da vida.

Nossa língua, nossos costumes, nossas crenças, nossos valores e até nossas preferências pessoais foram moldados por processos históricos, culturais e sociais. Gostamos das músicas que ouvimos, das comidas que consumimos, das roupas que usamos e até das ideias que defendemos porque fomos expostos a determinados ambientes e referências. O ser humano é, inevitavelmente, um ser influenciável.

Talvez por isso a ideia de autonomia absoluta seja uma das maiores ilusões modernas. Não decidimos no vazio. Nossas escolhas são permanentemente atravessadas por influências conscientes e inconscientes. Somos impactados pela família, pela escola, pelos amigos, pelas redes sociais, pelos ambientes que frequentamos e pelas narrativas que consumimos diariamente.

Esse processo de formação da vontade humana também alcança, naturalmente, a política e a democracia. O voto não nasce do nada. Ele decorre de percepções, emoções, pertencimentos e identificações construídas ao longo do tempo. Democracia pressupõe liberdade de escolha, mas uma liberdade construída sobre um ambiente minimamente saudável de informação e consciência.

E é exatamente nesse ponto que surge um dos maiores desafios do nosso tempo: a inteligência artificial e o poder dos algoritmos sobre a formação da vontade humana. Deepfakes, manipulações emocionais, conteúdos direcionados, desinformação em escala e sistemas capazes de compreender comportamentos humanos com precisão assustadora já deixaram de ser ficção científica. São realidade cotidiana.

Hoje, uma das profissões mais poderosas do mundo é justamente a de “influenciador”. Isso revela muito sobre a era em que vivemos. Nunca se disputou tanto a atenção humana. Nunca se tentou manipular tanto emoções, desejos e percepções. A preocupação da Justiça Eleitoral com o uso indevido e desregulado da inteligência artificial não é exagero; trata-se da proteção da própria liberdade democrática.

Porque o grande risco do presente talvez seja este: substituirmos a soberania humana por uma soberania artificial sem sequer percebermos. Acreditarmos que estamos escolhendo livremente, quando na verdade apenas reagimos a estímulos cuidadosamente calculados por algoritmos invisíveis. E quando a formação da vontade deixa de ser livre, a democracia deixa de existir em sua essência.

Curiosamente, em meio a tanto artificialismo, o humano voltou a ganhar valor. Livros clássicos, conversas reais, encontros presenciais, experiências autênticas e pessoas verdadeiras passaram novamente a despertar fascínio. Talvez porque, no fundo, exista uma percepção coletiva de que estamos lentamente nos desumanizando.

Talvez a eleição de 2026 seja justamente aquela em que a inteligência artificial dominará a forma da comunicação política, mas na qual o traço humano autêntico poderá voltar a ser o maior diferencial de um candidato. A autenticidade talvez se torne o ativo mais raro e valioso do século XXI.

E você? Já parou para pensar por que pensa como pensa? Suas convicções são realmente livres… ou apenas cuidadosamente induzidas?


(*) Prof Dr Anderson Alarcon
Advogado
@and.alarcon (siga)

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