Filme registra trajetória de cineasta

Documentário “A Holandesinha”, da cineasta com Síndrome de Down Luiza Godoi, será apresentado, de forma gratuita, em Apucarana e Maringá

Na semana que vem, Apucarana e Maringá serão palco do documentário “A Holandesinha”, filme que aborda toda a trajetória da cineasta Luiza Godoi, pessoa com Síndrome de Down, na construção do primeiro curta-metragem dela, “Lágrimas de um Pierrot”. O documentário é produzido também por João Gabriel Kowalski e tem como um dos recortes centrais mostrar como Luiza enxerga de forma única o cinema, além de contar bastidores e desafios na criação do curta. As exibições ocorrem dia 15 e 17 em Apucarana, às 19h30, no Cine Teatro Fênix e Associação Download, respectivamente. Dia 20, é a vez de Maringá receber às 10h30, no Cineflix, o longa-metragem e, 15h na Sala Cine UEM. As entradas são gratuitas. Confira o trailer ao final do texto.

O documentário chega nas duas cidades após ser candidato na Mostra Mirada Paranaense, prêmio do Festival Olhar de Cinema, em Curitiba, voltado ao melhor filme do Paraná. A Holandesinha foi inicialmente pensada para ser “uma cinebiografia sobre a vida” de Luiza, mas logo tomou outros rumos. Durante o trabalho que começou há oito anos, João percebeu que mais “potente” do que a biografia era gravar todo o processo de criação do curta. O filme também é, na visão dele, uma forma de mostrar a capacidade de alguém que, muitas vezes, não possui oportunidades de demonstrá-la.

“A ideia do documentário surgiu em 2018, quando descobri que a Luiza sonhava em se tornar cineasta e que me via como uma referência dentro do cinema. Isso me emocionou profundamente, porque percebi ali não apenas um sonho, mas uma vontade genuína de contar histórias e ocupar um espaço que historicamente quase nunca foi oferecido para pessoas com Síndrome de Down”, explica João.

A construção do filme fez com que a cineasta se sentisse “honrada”, e ficou feliz pela equipe que esteve presente em todo o processo. Luiza fala que muito do trabalho que resultou na indicação pelo documentário é fruto do esforço do João e espera muita emoção das pessoas no festival.

“Ele me acompanhou em vários lugares e foi gravando tudo que acontecia. Foi vendo crescer em mim a vontade de ser diretora, além de roteirista de cinema. E a partir dali ele me orientou a fazer aulas de direção e roteiro. Ele teve muita paciência e muito profissionalismo. Eu não sei o que vou ver na tela, estou bem ansiosa, mas com certeza o João captou toda a minha essência e que ele não viu só uma pessoa com Síndrome de Down, mas uma pessoa que tem capacidade de realizar um sonho. Acredito que será uma exibição muito emocionante e contagiante “, afirma.

A obra é tratada internamente como uma “Documédia”, dadas as diversas partes que compõem humor e descontração. “Apesar de abordar temas importantes, o filme possui uma leveza muito própria. A personalidade da Luiza, o universo do curta que ela está dirigindo e as situações que surgiram ao longo das filmagens criaram momentos extremamente espontâneos e divertidos. Muitas dessas situações acabaram revelando um humor muito natural. A própria maneira como a Luiza conduz o set, se relaciona com a equipe e encara os desafios gera momentos que transitam entre o sensível e o cômico”, conta o cineasta.

Mesmo com tantos momentos leves, o objetivo do documentário é outro. O principal intuito é abrir caminhos e ser um incentivo para que mais pessoas – com Síndrome de Down ou outras deficiências – possam contar as próprias histórias através do cinema. João Gabriel afirma que esse ainda é um espaço “pouco acessível para muitos artistas”, e acredita que a produção “pode contribuir para ampliar esse debate e gerar novas oportunidades dentro do setor audiovisual”. “Existe uma tendência de enxergar pessoas com deficiência apenas pelas suas limitações, e o documentário tenta justamente romper com esse olhar. A intenção é mostrar indivíduos extremamente criativos, sensíveis e capazes de construir obras artísticas com identidade própria”.

Tal característica criativa, junto com o desempenho, apareceram também através de João Vitor de Paiva, ator com a Síndrome, que integra o curta “Lágrimas de um Pierrot”. “Durante as gravações, ele demonstrou uma entrega impressionante ao personagem criado pela Luiza, mergulhando de forma muito intensa no papel e se dedicando profundamente ao processo artístico. A relação entre os dois dentro do set mostra como existe talento, comprometimento e profissionalismo que muitas vezes acabam sendo invisibilizados pela sociedade”, comenta Kowalski.

Aprendizados e expectativa do público – Presente em boa parte do curta e, também, no documentário, a produtora Pollyana Boffe afirma que a convivência com Luiza foi um privilégio e aprendeu muito com ela. “Foi muito interessante observar a forma como ela trabalhava com as pessoas, com os setores e como delegava as ideias dela, assim como foi também muito bonito observar a recíproca de trabalho de toda a equipe com ela. Foi uma troca muito bonita e genuína, que felizmente ficou registrada na obra cinematográfica.

Desde a produção do documentário ‘A Holandesinha’ até agora, eu me peguei várias vezes comentando com o João sobre os métodos da Luiza no set e sobre como eles me trouxeram reflexão e aprendizado para o meu próprio processo e trabalho. Trabalhar com ela me ensinou muito sobre confiança, autenticidade e coragem criativa. A Luiza tem muito disso: uma confiança muito forte na própria visão”, conta.

“Acredito que o público vai viver uma experiência muito afetiva e humana. A Holandesinha possui momentos extremamente divertidos e espontâneos, então acho que o primeiro sentimento será o riso. Ao mesmo tempo, espero que o documentário deixe algo mais profundo após a sessão. Que as pessoas saiam inspiradas pela força criativa da Luiza, pela maneira como ela enfrenta desafios e pela paixão genuína que ela tem pelo cinema. De forma geral, torço para que o público consiga enxergar, através do filme, pessoas com Síndrome de Down para além dos estigmas e limitações que muitas vezes são impostos pela sociedade”.

Próximos passos – João conta que estão com diversos planos para além dessas apresentações em junho. “Paralelamente ao circuito de festivais, também estamos buscando uma distribuidora e possíveis canais ou plataformas interessados em licenciar o documentário, para que ele alcance o maior número possível de pessoas. Além disso, existe outro elemento muito importante dentro desse processo: o curta-metragem “Lágrimas de Um Pierrot”, dirigido pela própria Luiza. Nossa intenção é que o curta também tenha vida própria no circuito de festivais, principalmente em mostras voltadas ao curta-metragem e ao cinema independente”, finaliza. (C/ Assessoria)

Apucarana
Datas: 15 e 17 de junho
Horário: 19h30
Gênero: documentário
Locais: Dia 15, no Cine Teatro Fênix – Av. Curitiba, 1215 – Térreo – Centro, Apucarana – PR / dia 17, na Associação Download – R. Lapa, 233 – Centro, Apucarana – PR
Duração: 90 minutos
Classificação: livre
Ingressos: Entrada gratuita, sujeito a lotação
Maringá
Data: 20 de junho
Horário: 10h30 e 15h
Gênero: documentário
Local: 10h – Cineflix – Av. São Paulo, 1099 – Centro, Maringá – PR / 15h – Sala Cine Uem – Av. Colombo, 5790 – Zona 07, Maringá – PR
Duração: 90 minutos
Classificação: livre
Ingressos: Entrada gratuita, sujeito a lotação