Cai a máscara e vemos o verdadeiro Sergio Moro

Vale lembrar quem é o ex-juiz federal e hoje político

Há uma cena que resume bem o momento político de Sergio Moro. É o dia 29 de maio de 2026, em Curitiba. O ex-juiz da que se autointitulava a maior operação anticorrupção da história do Brasil está num palanque ao lado de Flávio Bolsonaro – o mesmo senador que dias antes havia confirmado, com a própria voz gravada, ter pedido R$ 163 milhões ao dono de um banco sob investigação criminal. Um banqueiro preso. Com tornozeleira eletrônica. E Moro está lá, sorrindo, recebendo o apoio político de Flávio à sua pré-candidatura ao governo do Paraná.

Quando a imprensa perguntou sobre o assunto, Moro virou as costas. Literalmente.

Vale lembrar quem é Sergio Moro. Não o político do PL de 2026, mas o juiz que, por anos, quis ser o símbolo nacional do combate à corrupção. O homem que dizia que a proximidade com investigados é indício. Que silêncio diante de irregularidades é cumplicidade. Que relações financeiras suspeitas entre políticos e o setor privado precisam ser explicadas – e que a ausência de explicação já diz muito. Esse Moro não aceitava meias palavras. Esse Moro não aceitava que acusados virassem as costas para perguntas incômodas.

O que mudou?

Os fatos são conhecidos. O The Intercept Brasil revelou um áudio em que Flávio Bolsonaro pede R$ 163 milhões a Daniel Vorcaro, a princípio, para financiar um filme sobre o pai. O valor total do contrato de patrocínio chegaria a R$ 134 milhões, segundo os registros obtidos. Flávio primeiro negou. Depois confirmou o áudio. Confirmou também que visitou Vorcaro depois da prisão do banqueiro – para, segundo ele, “botar um ponto final” na relação. O próprio presidente nacional do PL, Valdemar da Costa Neto, declarou publicamente que Flávio foi até Vorcaro “ver se conseguia o restante do dinheiro”.

E há um detalhe que torna tudo ainda mais revelador: o próprio Moro, em momento anterior, havia criticado publicamente a interferência de Flávio Bolsonaro na Polícia Federal para travar investigações. Ou seja, não estamos falando de um aliado cujo histórico era desconhecido. Moro sabia. Documentou. E o apoia mesmo assim.

A defesa que circulou nos bastidores foi a de que o áudio estaria sendo usado politicamente pela oposição. É uma linha curiosa. Quando o próprio acusado confirma a autenticidade do material, atacar quem o divulgou é um argumento que, no mínimo, exige criatividade. No máximo, revela desespero.

A explicação mais simples, como quase sempre, é a mais verdadeira: Moro precisa de Flávio Bolsonaro. Precisa do PL. Precisa da estrutura, do palanque, da máquina eleitoral que o partido oferece no Paraná. Sem esse apoio, sua candidatura ao governo estadual perde viabilidade. E quando a sobrevivência política está em jogo, para certo tipo de gente, princípios tendem a se tornar itens negociáveis.

É aqui que o círculo se fecha com uma ironia que a ficção dificilmente produziria: o homem que construiu sua imagem condenando exatamente esse tipo de cálculo – o de quem fecha os olhos para irregularidades porque o investigado é politicamente conveniente – agora protagoniza o mesmo movimento que passou anos reprovando nos outros.

Moro não mudou de convicção. Esse é o Moro sendo o que sempre foi. Mudou de interesse. E esse tipo de mudança tem três nomes: hipocrisia, conivência e oportunismo.


(*) Requião Filho é deputado estadual pelo PDT do Paraná e pré-candidato ao governo do estado

Imagem gerada por IA