Patrimônio e planejamento

Morte de Oliver Tree e destino da fortuna reacendem debate sobre a importância do planejamento sucessório

A morte repentina do cantor, músico e produtor norte-americano Oliver Tree, aos 32 anos, em um acidente envolvendo a colisão de dois helicópteros no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, trouxe novamente à tona um tema que costuma ser adiado por grande parte das pessoas: a necessidade de registrar formalmente, ainda em vida, suas vontades para depois da morte. Conhecido mundialmente por sucessos como Life Goes On e Miss You, o artista estava em turnê pela América Latina quando ocorreu o acidente que vitimou as seis pessoas a bordo das aeronaves, no domingo.

Pouco antes de sua morte, Oliver Tree havia concedido uma entrevista ao videocast Zach Sang Show na qual revelou que não pretendia deixar sua fortuna para familiares. Segundo o artista, sua intenção era direcionar integralmente o patrimônio acumulado ao longo da carreira para iniciativas filantrópicas e causas sociais. “A declaração chamou atenção justamente por demonstrar um planejamento sucessório previamente pensado e alinhado aos seus valores pessoais, algo ainda pouco comum entre pessoas jovens, mesmo aquelas que possuem patrimônio relevante”, ressalta o advogado Jossan Batistute, sócio do Escritório Batistute Advogados e especialista em questões patrimoniais e sucessão patrimonial e familiar.

O episódio evidencia uma realidade frequentemente ignorada: a morte inesperada pode ocorrer em qualquer fase da vida e a ausência de um planejamento sucessório costuma gerar conflitos familiares, disputas judiciais e incertezas sobre o destino dos bens. “O testamento é justamente o instrumento jurídico criado para permitir que uma pessoa expresse formalmente suas vontades, definindo como parte de seu patrimônio deverá ser distribuída após seu falecimento, além de registrar desejos de natureza pessoal, cultural ou filantrópica. Em alguns casos, até a totalidade do patrimônio pode ser tratada via testamento.”, ressalta Jossan.

No caso de Oliver Tree, entretanto, a decisão de destinar toda a sua fortuna à filantropia foi possível porque ele era cidadão norte-americano e estava sujeito às regras sucessórias aplicáveis à sua realidade jurídica. No Brasil, a situação seria diferente. “A legislação brasileira estabelece a existência dos chamados herdeiros necessários, que sejam descendentes, ascendentes e cônjuge, que possuem direito garantido por lei à chamada legítima, correspondente à metade do patrimônio deixado pelo falecido. Isso significa que, havendo herdeiros necessários, o titular dos bens só pode dispor livremente de até 50% de seu patrimônio por meio de testamento”, esclarece o advogado Jossan Batistute.

Dessa forma, conforme explica o especialista, um brasileiro que possua filhos, pais e/ou cônjuge não poderia simplesmente determinar que toda a sua fortuna fosse destinada a uma instituição beneficente ou a terceiros. “Mesmo que essa seja sua vontade, a lei reserva parte obrigatória da herança aos herdeiros protegidos pelo sistema sucessório brasileiro. Ainda assim, o testamento continua sendo uma ferramenta essencial para organizar a sucessão, reduzir conflitos e garantir que a parcela disponível do patrimônio seja destinada conforme os desejos do testador”, pondera o advogado.

O especialista destaca ainda que o planejamento sucessório não deve ser encarado como um tema exclusivo para idosos ou grandes empresários. “Qualquer pessoa que possua patrimônio, investimentos, imóveis, obras intelectuais ou mesmo interesses específicos relacionados à preservação de seu legado pode se beneficiar da elaboração de um testamento. Além da distribuição de bens, o documento pode registrar orientações sobre acervos culturais, direitos autorais – o que inclui acervos e perfis em redes sociais –, administração de empresas familiares, perdão de dívidas, palavras finais a pessoas queridas, apoio a instituições sociais, entre outras situações”, comenta Jossan.

A comoção causada pela morte de Oliver Tree e pela divulgação de suas escolhas pessoais serve como um lembrete de que a organização patrimonial é, antes de tudo, um ato de responsabilidade. “Mais do que definir quem receberá determinados bens, o testamento permite que valores, causas e convicções sobrevivam ao próprio indivíduo. Em um cenário em que acidentes e fatalidades podem interromper trajetórias de forma inesperada, planejar a sucessão deixa de ser apenas uma questão financeira para se tornar uma forma de preservar a própria vontade e evitar que decisões importantes fiquem exclusivamente nas mãos da lei ou de disputas futuras.” (Assessoria)

Foto: Divulgação