Haiti: três curiosidades históricas do próximo rival do Brasil na Copa

Pequeno em território, o Haiti é um país de contrastes com maravilhas do Caribe, patrimônios únicos no mundo e história cheia de capítulos trágicos

Depois de um tenso empate em 1 a 1 contra o Marrocos na estreia da Copa do Mundo, o Brasil volta a campo hoje para enfrentar o Haiti. A partida, válida pela segunda rodada do Grupo C, será realizada no estádio Lincoln Financial Field, na Filadélfia. Esta é apenas a segunda vez na história que o país caribenho disputa o mundial, mais de 50 anos depois de sua estreia, em 1974. Fora dos gramados, os haitianos vivem em um país cheio de contrastes: das paisagens paradisíacas do mar do Caribe aos marcantes acontecimentos naturais e políticos nos últimos séculos.

“Este é um país com camadas profundas de resistência, espiritualidade e identidade cultural. Infelizmente conhecido por ter sido cenário de grandes tragédias humanitárias nas últimas décadas, o Haiti tem uma história linda de lutas e resiliência que acaba não aparecendo muito nas notícias”, avalia Juliano Costa, licenciado em História, mestre em Educação e diretor de Produtos e Marketing da Aprende Brasil Educação.

1. A primeira abolição permanente da escravidão nas Américas – Terra da maior fortaleza das Américas, de belezas naturais inconfundíveis e de uma das línguas crioulas mais faladas do planeta, o Haiti foi o primeiro país do hemisfério ocidental a abolir permanentemente a escravidão. Embora o fim da escravidão tenha sido proclamado localmente em 1793, durante a insurreição revolucionária, esse processo foi temporariamente revogado por Napoleão Bonaparte em 1802. A abolição definitiva, soberana e indissociável da identidade nacional só se consolidou com a proclamação oficial de independência do país, em 1º de janeiro de 1804. “Estamos falando de uma nação pioneira na luta contra a escravidão, que alcançou essa conquista, bem como sua independência, às custas de muita batalha, tanto no sentido literal quanto no sentido financeiro. Em 1825, depois de mais de duas décadas de bloqueio comercial da França, o Haiti se comprometeu a ressarcir seus colonizadores por esses processos”, conta Costa.

Esses encargos financeiros abusivos impediram o pleno desenvolvimento do Haiti, uma vez que a maior parte das receitas públicas estava comprometida e não podia ser revertida em infraestrutura, educação ou saúde para a população. Esse fardo histórico foi reconhecido oficialmente pela França em 17 de abril de 2025, quando o presidente Emmanuel Macron anunciou uma comissão bilateral franco-haitiana para estudar o impacto cumulativo da dívida sobre a nação caribenha, embora o governo francês ainda não tenha sinalizado qualquer devolução de valores.

2. A Batalha de Vertières e a proximidade com a Polônia – Uma das grandes polêmicas envolvendo os haitianos na Copa do Mundo de 2026 foi a exigência da FIFA para que a seleção caribenha modificasse de forma urgente o design de suas camisas de jogo. A entidade máxima do futebol vetou o modelo por considerar que a ilustração na porção inferior direita trazia uma representação que violava as regras de equipamentos contra mensagens de natureza política.

A imagem vetada retratava a histórica Batalha de Vertières, ocorrida em 18 de novembro de 1803. Esse confronto foi o marco militar e simbólico decisivo para o fim do domínio colonial francês, quando as forças revolucionárias lideradas por Jean-Jacques Dessalines impuseram uma capitulação final às tropas de Napoleão Bonaparte e pavimentaram o caminho para a proclamação da independência.

Paralelamente, o uniforme gerou uma interpretação equivocada que viralizou nas redes sociais, sugerindo um suposto uso da bandeira da Polônia na camisa. A fabricante de material esportivo Saeta e a Federação Haitiana de Futebol desmentiram o boato, esclarecendo que a imagem estampada exibia a primeira versão revolucionária da bandeira nacional haitiana, sem o brasão central. O mal-entendido decorreu de uma escolha visual da fabricante: como o uniforme do Haiti é azul-escuro, o tom de azul da bandeira revolucionária foi clareado para garantir o contraste no tecido, criando uma ilusão de ótica que assemelhava a faixa superior ao branco polonês.

Ainda assim, existe uma profunda conexão histórica entre as duas nações: “Em 1802, Napoleão Bonaparte enviou legiões polonesas para reprimir a revolução haitiana, que estava a todo vapor. Mas, ao chegar ao Haiti, esses soldados desertaram e se uniram à população local contra os franceses”, detalha o especialista. Em virtude dessa aliança militar e de solidariedade, os soldados poloneses que permaneceram no país após a independência ganharam o direito à cidadania haitiana.

3. História recente, o Jogo da Paz e a acolhida no Brasil – Já no início do século XXI, o Haiti foi palco de grandes catástrofes humanitárias, causadas tanto pela forte instabilidade política e pela violência extrema no país quanto por eventos naturais como terremotos, furacões e tempestades tropicais. Em 2004, a seleção brasileira, que tinha conquistado o pentacampeonato mundial dois anos antes, esteve na capital haitiana, Porto-Príncipe, para o chamado “Jogo da Paz”. Naquela ocasião, o Brasil liderava as forças de estabilização da ONU no país e a partida amistosa foi organizada em prol de uma campanha de desarmamento local.

“Com estrelas como Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo, os brasileiros enfrentaram a seleção local em um amistoso que, se não alcançou a tão sonhada paz, mobilizou milhões de haitianos do aeroporto até o estádio e dentro dele, em cenas profundamente emocionantes”, lembra Costa. Em 2010, um histórico e devastador terremoto matou mais de 200 mil pessoas no país caribenho, vitimando também a médica brasileira Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança.

Desde então, as relações e os laços de acolhimento entre o Brasil e o Haiti se estreitaram de forma permanente. Para facilitar a entrada e a regularização de cidadãos haitianos que fugiam da devastação ambiental e de instabilidades, o governo brasileiro adotou políticas específicas de acolhida humanitária. Como os pedidos de asilo por crises ambientais ou socioeconômicas não encontravam respaldo tradicional na Convenção de Genebra de 1951 para o status de refugiado clássico, o Conselho Nacional de Imigração instituiu vistos temporários e autorizações de residência específicos por razões humanitárias.

Segundo dados oficiais do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) em parceria com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), entre 2010 e 2024 o Brasil registrou um volume acumulado de mais de 186 mil entradas de haitianos em seu território. Desse total, foram protocoladas exatamente 40.483 solicitações formais de refúgio no período, sendo que a quase totalidade dessa população obteve sua regularização jurídica em solo brasileiro diretamente pela via dos vistos humanitários e das políticas de reunião familiar. (CentralPress)

Foto: Tim Wildsmith/Unsplash