A finitude da vida

Em estratos sociais elevados, os efeitos do tempo são menos aparentes e danosos daqueles apresentados pela imensa maioria da população

Assunto comentado principalmente entre os já passados dos sessenta, nosso epílogo existencial tem despertado atenção também entre os menos experientes, envoltos na interminável demanda pela longevidade terrena. Nesses tempos de modernidade galopante, em que o providencial buscador da internet apresenta instantaneamente todas as respostas factíveis e imagináveis, é possível delinear e até mesmo prever o futuro quando o assunto é a aparente jovialidade do invólucro temporário. Incontáveis receitas para rejuvenescimento, emagrecimento, prevenção disso ou daquilo pululam nos canais virtuais mostrando que o tempo, outrora reconhecido como “o senhor da razão” ganhou outra dimensão, agora muito mais elitizada e tecnológica. Existem profissionais em absolutamente todas as áreas da medicina com procedimentos estéticos ultramodernos, obviamente inalcançáveis para as algibeiras menos privilegiadas. Assim, seria razoável afirmar que em estratos sociais elevados, os efeitos do tempo são menos aparentes e danosos daqueles apresentados pela imensa maioria da população.

Muito embora a situação financeira venha a beneficiar determinadas classes, a longevidade depende de diferentes fatores como herança genética, atividades laborais e principalmente, a atenção constante com a manutenção da saúde. Há que se incluir nesse rol a qualidade da condição mental, como garante a frase do latim “mens sana in corpore sano”. Mas quais os limites considerados razoáveis na busca pela procrastinação da juventude, tendo como objetivo principal uma boa qualidade de vida? Até que ponto o ser humano consegue manter-se sadio o suficiente para driblar os efeitos naturais de uma existência? Submeter-se a procedimentos altamente invasivos e muitas vezes complexos, apenas para diminuir a circunferência abdominal, ou reduzir e disfarçar as rugas, ou ainda, aumentar exageradamente o busto é um risco aceitável para atender aos reclames do ego? A vaidade exacerbada tem o poder de direcionar esse tipo de decisão?

É evidente que uma harmonização facial, uma lipoaspiração, um implante de silicone eleva consideravelmente a autoestima do indivíduo, principalmente quando os resultados são satisfatórios. Acontece que não há como desafiar a passagem do tempo indefinidamente. Os cabelos brancos e as rugas representam de forma indelével a experiência adquirida. São vestígios permanentes de quem já compartilhou alegrias, tristezas, vitórias, derrotas, recomeços e tantos outros sentimentos inerentes ao exercício da vivência humana. Os que ostentam essas particularidades são privilegiados pela dádiva divina da longevidade e deveriam, portanto, suscitar orgulho e respeito dos mais jovens.

A sociedade tende a valorizar demasiadamente as novidades e isso acontece em todos os setores. O veículo zero quilômetro, o celular de marca mundialmente reconhecida, a roupa de grife famosa, o calçado importado, a bolsa ou o relógio custando o preço de carro popular figuram como desejos imediatos de consumo. É plausível concluir, portanto, que quase tudo o que envelhece perde seu valor, inclusive as pessoas. Somos continuamente induzidos a acreditar que a juventude física é o suprassumo da vida. E que os cabelos brancos, as rugas, os reflexos lentos, a visão limitada, o corpo debilitado são sinais de que o fim do jogo se aproxima. Porém, isso será decidido pelo árbitro celestial, que haverá de acrescentar ou não, o tempo de prorrogação para cada um. Talvez com direito a revisão dos lances pelo VAR. Como ensina os escritos bíblicos, “és pó, e ao pó retornarás”. Assim será.


(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR

Foto: Daniel & Hannah Snipes/Pexels