A conta dupla do paranaense

O reajuste da Copel e o custo da ilusão privatista

O debate público e as redes sociais paranaenses foram tomados por uma severa indignação nos últimos dias. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) homologou uma revisão tarifária que eleva em cerca de 20% o custo da energia elétrica para os consumidores residenciais da Copel. A justificativa regulatória baseia-se na recomposição de investimentos realizados na rede de distribuição nos últimos cinco anos. Contudo, para a população, o reajuste funciona como o primeiro grande colapso da narrativa que sustentou a recente privatização da companhia.

É imperativo recordar que o processo de desestatização contou com expressivo respaldo político e popular. Todavia, os dados financeiros revelam uma assimetria gritante: uma empresa com lucro líquido superior a R$ 7 bilhões em um triênio foi transferida ao controle privado, resultando em um ingresso de apenas R$ 3,1 bilhões nos cofres do Estado.

O cenário torna-se ainda mais gravoso quando analisamos a linha temporal dos investimentos alegados. Ao cobrar o ressarcimento por melhorias executadas nos últimos cinco anos, a concessionária inclui um período em que ainda operava sob controle público. Na prática, o cidadão paranaense financiará duplamente o mesmo ativo. Trata-se de uma fatura indigesta imposta aos que endossaram a liquidação do maior patrimônio econômico do Paraná.

Essa realidade expõe o fracasso das teses de eficiência de mercado que ganharam força a partir de 2018. A promessa de que a privatização reduziria tarifas e otimizaria serviços provou-se falaciosa. A eficiência operacional pretendida não se traduziu em modicidade tarifária; pelo contrário, o custo atual assemelha-se ao de encargos abusivos.

Manifestar essas linhas não constitui um mero lamento tardio, mas sim o reitero de alertas emitidos nos pleitos de 2018 e 2022. O voto sem critério e o alinhamento cego a discursos privatistas cobram o seu preço. Os representantes eleitos dispunham dos mecanismos institucionais para salvaguardar o patrimônio do Estado, mas optaram pela conivência com o interesse privado, legando o prejuízo à sociedade paranaense.


(*) Israel Marazaki — fiscal por instinto, cronista por raiva e sentinela por missão