Tá tudo dominado na Cracolândia digital que se tornou o Brasil
Além da Copa do Mundo, um dos assuntos mais debatidos dos últimos dias é o avanço das apostas esportivas online. O crescimento das bets no Brasil levou o governo federal a proibir o cadastro de beneficiários do Bolsa Família nas plataformas de apostas, reacendendo o debate sobre os limites entre liberdade econômica e responsabilidade social.
A Cazé Tv, que bateu recordes exponenciais de audiência a níveis estratosféricos internacionais no YouTube, está no alvo dessas críticas. Propagandas e apelos agressivos e renitentes às apostas durante as transmissões dos jogos chamaram a atenção dos espectadores. O abuso motivou o Ministério Público mover ação para conter a sangria desatada coagulante dos incentivos às apostas. No entanto, como bem disse o colunista Antônio Prata, em matéria da Folha recente da Folha, a Cazé Tv é só “uma boca de fumo” no meio de um grande organismo financeiro predatório, articulado com tentáculos que envolvem boa parte dos conglomerados midiáticos. Até o Brasileirão, campeonato mais importante do futebol brasileiro leva nome de bets, Brasileirão Betano. Tá tudo dominado na Cracolândia digital que se tornou o Brasil.
Matéria da Revista Piauí, Editora Abril de junho, intitulada “A tigresa dos algoritmos,” mostra o papel dos influenciadores no estímulo à jogatina. A influenciadora Virgínia Fonseca, segundo informações discutidas CPI das Bets do Senado, recebia 30% do valor das apostas perdidas, o chamado “cachê da desgraça alheia”. Ela não vê problema algum em veicular sua imagem às publicações, assim como os grandes conglomerados da mídia brasileira. Virgínia tem mais de 57 milhões de seguidores, ou seja, um quarto da população brasileira.
Estamos reféns do mercado, e de um mercado voraz pelo lucro sem nenhuma responsabilidade social sobre o vício e o aniquilamento financeiro de milhares de famílias, especialmente as vivem em situação de pobreza. É a mão invisível do mercado, que preconizava Adam Smith, a assunção do mercado como grande regulador da economia sem a intervenção do “paquidermico e burocrático” Estado. É como negociar com o patrão, àqueles que se opõe ao fim da escala 6 por 1. Diante desse cenário, temos uma via civilizatória: ou o Estado regula a voracidade de uma patologia que, para além de financeira é de saúde pública, afinal trata-se de uma dependência silenciosa e epidêmica que amealha especialmente os mais vulneráveis, ou estamos diante de mais um problema crônico atroz de adoecimento do tecido social brasileiro.
(*) Joel Júnior Cavalcante é professor, sociólogo e comentarista
Imagem gerada por IA
