A estupidez é contagiosa

Amenizada a frustração pela eliminação da seleção canarinho, nossos inconsequentes torcedores se deparam com a conta apresentada pelo rescaldo futebolístico

Em uma competição esportiva existem algumas alternativas para o resultado. No caso específico do futebol a princípio são três, mas a depender do formato da competição restam somente a vitória ou a derrota para que se conheça a agremiação a avançar a próxima etapa. Essa condição é amplamente conhecida por todos os envolvidos e principalmente, pelos torcedores. Dito isso, não existem justificativas para as cenas lamentáveis divulgadas pela internet, em que torcedores revoltados com a eliminação do selecionado brasileiro na copa do mundo passaram a destruir aparelhos de TV e outros objetos à sua volta. Evidentemente essas demonstrações de irracionalidades aconteceram providencialmente ao alcance das lentes dos smartphones, porque se faz necessário o registro do fato para realçar o inconformismo momentâneo e impetuoso com a situação ora vivenciada.

Atitudes reprováveis parecem não se restringir a determinados continentes. Em absolutamente todas as regiões do planeta as cenas de hostilidade acontecem, especialmente antes, durante e após confrontos clássicos entre times tradicionalmente rivais. A conduta agressiva geralmente é caracterizada pelo comportamento de manada, em que os indivíduos seguem decisões de um grupo maior, sem proceder a uma necessária análise crítica. Nesse quesito específico se encaixam nossos destemperados e parvos brasileiros da gema. Os mesmos de sempre. Aqueles que fazem questão de gravar a cena para posterior divulgação, mostrando que carregam consigo doses generosas de imbecilidade. Como se a culpa fosse de um receptor eletrônico que no minuto anterior servia de elo entre o frenesi do telespectador e o ardor natural da peleja.

O pior disso tudo é que os adultos acabam induzindo os menores com suas demonstrações de incivilidade. Diversos vídeos de crianças e adolescentes queimando os álbuns dos jogadores da copa foram veiculados nas redes sociais. Logo eles, que malharam por meses para conseguir as figurinhas mais difíceis e se transformaram em agentes mirins de um costume antigo, mas essencialmente interativo. Atividade positiva, que proporciona a troca de experiências, de conhecimento, da conquista de novas e interessantes amizades. Ao invés de aproveitar a oportunidade da derrota no esporte para transmitir aos rebentos como contornar os obstáculos e seguir em frente na vida, os pais simplesmente destilaram suas frustrações no resultado do jogo. Assim também demonstrou aquele mal educado torcedor, ao simular o uso do papel higiênico com a bandeira nacional. Uma baixaria pura, típica de um povo carente de educação e respeito.

Amenizada a frustração pela eliminação da seleção canarinho, nossos inconsequentes torcedores se deparam com a conta apresentada pelo rescaldo futebolístico. Sem taça do hexa, sem TV de tela grande, sem álbum de figurinhas, sem saldo no banco, sem limite no cartão de crédito e sem moral diante daqueles que visualizaram o show de estupidez coletiva. As postagens da insensatez são a prova do quão distante estamos de uma nação desenvolvida. Mas como a memória de alguns brasileiros é curta, limitada e seletiva, logo tudo será convenientemente esquecido, para se repetir novamente daqui a quatro anos. Como diria o competente jornalista Boris Casoy, “… isso é uma vergonha”.


(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR