A Copa, o debate racial e as veias abertas da América Latina


A Argentina dá uma aula de futebol e raça ao mundo, falta, porém, a aula de civilidade e da história sobre nosso processo formativo como povo e continente
Sem querer entrar no Fla-Flu das redes sobre a legitimidade de torcer ou não para a Argentina, chama a atenção o intenso debate racial que emergiu nesses dias. Diálogos que nos fazem pensar sobre a complexa formação étnica e cultural latino-americana. Sim, amigos, Copa do Mundo também é cultura.
Se o Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão no Ocidente, um processo de escravidão longevo e violento acompanhado posteriormente do seu projeto ‘claro’ de branqueamento populacional, tendo figuras proeminentes do pensamento e da cultura que defendiam o projeto eugenista, como Monteiro Lobato, Nina Rodrigues, Oliveira Viana o exemplo dos nossos hermanos é mais explícito e exitoso.
A Argentina passou por um projeto de branqueamento racial, uma política de Estado que incentivou a imigração europeia e nenhuma lei de reparação histórica, o que reduziu de 30% para 1% a sua população negra. Não por acaso, a diáspora italiana se concentra, primeiramente, nos EUA, Argentina e Brasil. Diante do exposto, é notório que o Brasil não fica atrás, em que pese algumas ressalvas recentes. O sociólogo Florestan Fernandes, em seu clássico A Integração do Negro na Sociedade de Classes, demonstra o projeto de subalternidade e exclusão propalado à população negra pelo Estado brasileiro e pelo capitalismo tardio à brasileira.
A nossa vantagem em relação aos nossos vizinhos é que, nas últimas décadas, com o processo de redemocratização e a emergência dos movimentos sociais, especialmente do Movimento Negro Unificado, o Brasil tem adotado leis pautadas na reparação histórica, políticas afirmativas e criminalização do racismo.
Se, por aqui, como enfatizava Darcy Ribeiro, temos uma dificuldade de nos reconhecer como latino-americanos, somos a eterna Belíndia (se pensa como Bélgica, mas se vive com as estratificações da Índia), nosso vizinho platino não consegue ver a pluralidade formadora do continente, diversidade que fizeram questão de aniquilar por meio da ação estatal.
Sejamos justos. O futebol do sr. Messi, no alto dos seus 39 anos, é de dar inveja aos “meninos” brasileiros. A Argentina dá uma aula de futebol e raça ao mundo, falta, porém, a aula de civilidade e da história sobre nosso processo formativo como povo e continente. Nesses dias, lembrei de um bigodudo cearense e fiquei realmente reflexivo se um tango argentino cai melhor que um blues, se somos todos latino-americanos sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindos do interior (do mundo).
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