Política, religião e futebol


A nociva polarização política ocorre entre os católicos e entre os protestantes
O ditado popular “futebol, política e religião não se discutem” nasceu como uma regra social para evitar brigas. Na minha infância e juventude era muito comum o seu uso, mas hoje a visão sobre isso mudou radicalmente. Atualmente, entende-se que esses três temas devem ser discutidos, desde que haja respeito mútuo, pois eles definem a identidade, a cultura e o funcionamento da sociedade, embora, a partir do evento do ’bolsonarismo’, falar sobre política e religião voltou a exigir uma dose de equilíbrio que nem sempre todos temos.
Política e religião são dimensões fundamentais da existência humana, mas pertencem a ordens distintas, nos diz Simão Pedro de Lima, espírita, em postagem no Facebook. Como ensinava Aristóteles, a política existe para promover o bem comum e tornar possível uma vida justa em comunidade. Seu horizonte é a organização da cidade; o da religião é a formação moral da consciência e a busca pelo sentido da existência.
Para Tomás de Aquino, prossegue ele, a consciência deve ser formada pela verdade e pela razão, jamais substituída pela vontade de outro. Educar consciências é diferente de ocupá-las. Orientar moralmente não significa determinar escolhas políticas. A liberdade de consciência é um dos pilares de uma sociedade verdadeiramente livre. Mas ela exige uma responsabilidade recíproca: ninguém deve invadir a consciência alheia, nem utilizar a autoridade, o prestígio ou a confiança que recebeu para conduzir pessoas segundo interesses próprios.
Quando a religião busca vantagens políticas, perde parte de sua missão espiritual. Quando a política se vale da religião para conquistar legitimidade, votos ou poder, enfraquece a própria democracia. Em ambos os casos, estabelece-se uma relação de conveniência, e não de serviço ao ser humano.
Jacques Maritain defendia que a ordem espiritual e a ordem temporal são distintas e cooperam melhor quando preservam sua autonomia. A fé pode inspirar virtudes na vida pública, mas jamais deve ser transformada em instrumento de disputa política. Da mesma forma, a política não deve recorrer ao sagrado para obter adesão que não conquistou pela força dos argumentos.
Abusar da fé ou da boa-fé das pessoas para alcançar objetivos políticos ou ideológicos constitui um desvio ético. A confiança depositada nas instituições religiosas e em seus líderes não pode ser convertida em capital eleitoral nem em mecanismo de influência sobre consciências. A religião existe para formar consciências. A política existe para promover o bem comum. Ambas servem melhor à sociedade quando rejeitam qualquer relação de interesse, respeitam a liberdade de consciência e reconhecem que toda consciência deve ser formada, jamais manipulada; respeitada, jamais invadida.
Já Padre Zezinho, um dos melhores compositores de música católicas, postou que soube que há um grupo católico que proibiu seus jovens de cantar suas músicas porque ele seria, na visão daquele grupo, um padre comunista. Contou-nos o veterano sacerdote que respondeu que eles têm todo direito de escolher o que cantar, só não tem o direito de caluniar quem prega as encíclicas sociais católicas. E prosseguiu: Não sou tijolo do formato que eles querem. Na construção desses católicos, um velho padre de 85 anos, com 60 anos de sacerdócio, já não tem utilidade. Conhecem um pequeno ângulo da vida e já falam como se conhecessem todos os dogmas da fé cristã.
Assim, constata-se, digo eu, que, se entre católicos a nociva polarização política ocorre, dentre os protestantes não é diferente. Há uma divisão, como verdadeiras torcidas de times de futebol. Falando em futebol, após mais um fiasco da seleção brasileira é de perguntar quais as causas. Ouso dizer que, se antes havia em cada bairro, em cada terreno vazio, um campinho, hoje já mais igrejas do que locais de prática do esporte. E logo podemos ter mais partidos políticos que igrejas, com fieis e torcedores ficando em segundo plano.
Imagem: Reprodução/VTV News
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