Política há muito virou profissão, o que propiciou o surgimento de verdadeiras oligarquias em que o legado é transmitido para as futuras gerações
A atividade política deve ser mesmo uma maravilha. E seus polpudos bônus mais ainda, a julgar pela quantidade de candidatos que anseiam representar o eleitor a cada pleito. Obviamente a imensa maioria desses postulantes sequer possui capacidade suficiente para enumerar duas ou três atribuições constitucionais de um parlamentar. Muito menos as de um ocupante de cargo majoritário como prefeito, governador, senador ou presidente da República. Mas esse é apenas um detalhe, o que importa mesmo é preencher as vagas de registro de candidaturas destinadas a cada sigla respeitando-se a cota de 30% para mulheres nas eleições proporcionais, como é o caso da disputa para deputados estaduais, federais e distritais.
Política nesse País há muito virou profissão. Aparentemente rentável, aliás, porque absolutamente ninguém que provou do sabor adocicado dessa supimpa iguaria deseja largar o osso por vontade própria. Essa atividade específica propiciou o surgimento de verdadeiras oligarquias em que o legado é transmitido para as futuras gerações, resultado direto de influências conquistadas por décadas de mando político. O que mais impressiona é a ânsia indisfarçada pelo poder, sentimento visivelmente estampado no semblante de cada candidato, seja ele influente veterano de alguns mandatos ou um mero e inofensivo calouro, completamente inexperiente no assunto. Aí aparecem os “especialistas” em diferentes áreas como sociologia, antropologia, cientistas políticos e alguns profissionais da mídia tradicional garantindo que o voto tem o poder de mudar o destino de uma nação. E que o exercício da cidadania passa obrigatoriamente pelo voto consciente. Com o atual sistema político vigente “voto consciente” é conversa para boi dormir, um cerca-lourenço surrado que não cola mais, uma verdadeira utopia.
Mesmo porque é notória a subserviência dos eleitos para com os interesses dos partidos políticos aos quais estão filiados. Esse compromisso não impede o eleitor de eventualmente acompanhar o desempenho de seus representantes, mas a permanência do parlamentar na agremiação depende exclusivamente do acatamento às decisões partidárias. Em suma, não existe relação alguma entre a escolha de um candidato supostamente preparado para o exercício do mandato parlamentar e sua efetiva atuação em prol dos interesses da coletividade. Depois de eleito, cada qual se bandeia para o lado que melhor lhe convier e isso sempre aconteceu. Afirmar que o eleitor tem o poder de exigir coerência, transparência e um mínimo de escrúpulo de seus representantes é um engodo pueril, que encontra respaldo apenas na ingenuidade dos desinformados manipuláveis.
É interessante ressaltar ainda algumas peculiaridades presentes em nossos reverenciados políticos, entre eles o péssimo e recorrente costume em omitir a verdade. Mentir sem constrangimento algum é uma característica inerente à maioria dos que ocupam as poltronas estofadas do poder. Decerto porque se julgam em posição de superioridade em relação ao cidadão comum, por conta da relevância do cargo ao qual foram alçados. Ignoram o fato de que o voto é um aval transitório, eventualmente renovável e que, em tese, deveria ser exercido com discernimento e competência em benefício da maioria. Mas é aqui que o bicho pega. Sabemos muito bem em quais interesses suas excelências se esmeram. E não são os mesmos dos pagadores de impostos. Nossa política é maravilhosa. Para os políticos.
(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR.
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