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Vorcaro, o homem mais temido do Brasil

Mesmo num país marcado por tanta corrupção, o caso do Banco Master tornou-se único pela amplitude do envolvimento conjunto de autoridades dos Três Poderes

Mayday é o código internacional de pedido de ajuda usado na navegação e na aviação que exige prioridade absoluta. Apavorado pelo cerco da Operação Compliance Zero da Polícia Federal, no dia 17 de novembro de 2025, o proprietário do Banco Master, Daniel Vorcaro, enviou sete pedidos de socorro para o celular do ministro Alexandre de Moraes. A primeira mensagem foi enviada às 7h19. Sem retorno positivo, às 17h22 ele disparou: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. A operação de salvamento falhou e, por volta das 22 horas, Vorcaro foi detido no Aeroporto de Guarulhos tentando embarcar para o exterior.

No seu arcabouço de busca por proteção das autoridades, o que mais chamou a atenção dos investigadores foi o contrato de R$ 129 milhões entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, da esposa e de dois filhos do ministro Alexandre de Moraes. Conforme apurado pela Polícia Federal, Vorcaro confiava que esse e outros contratos milionários garantiriam sua blindagem no Judiciário. Imagine a frustração do banqueiro: no dia em que mais precisava de socorro, não obteve nenhum apoio. Detalhe: no desespero, ele recorreu diretamente ao ministro Alexandre de Moraes. Ainda no âmbito do STF, as investigações apontam que o ministro Dias Toffoli teria recebido repasses direcionados à Maridt, empresa de sua família.

Daniel Vorcaro também estruturou uma ampla rede de influência no Legislativo. Conforme os relatórios da PF, ele teria enviado US$ 30 milhões no exterior ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre. O presidente da Câmara, Hugo Motta, teria obtido um empréstimo suspeito de R$ 22 milhões. Já o líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner, foi alvo de apreensões de dólar e euro, além de 13 relógios e indícios de ocultação de um apartamento de luxo em Salvador. A PF aponta ainda que o senador Ciro Nogueira teria sido beneficiado com R$ 6 milhões. Sem preferência ideológica, o ex-banqueiro enviou R$ 61 milhões para um fundo nos Estados Unidos, a pedido do senador Flávio Bolsonaro, para financiar um filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Mas, para mascarar a fraude bilionária e viabilizar transações comerciais com dinheiro público, Vorcaro precisava penetrar nas entranhas do Poder Executivo. Recebendo R$ 1 milhão por mês, segundo os indícios, Guido Mantega — o mais longevo ministro da Fazenda dos governos petistas — teria levado o ex-banqueiro para um encontro pessoal com o presidente Lula, fora da agenda oficial. A audiência durou 1h30, e Lula teria aconselhado o dono do Master a não vender o banco para o BTG Pactual, sinalizando também que em breve haveria a troca no comando do Banco Central, com a saída de Roberto Campos Neto (da era Bolsonaro) e a entrada de Gabriel Galípolo, homem de confiança do presidente. Dois altos funcionários do BC também teriam sido aliciados com propinas generosas: Paulo Sérgio Neves de Souza (ex-diretor de Fiscalização) e Belline Santana (ex-chefe de Departamento de Supervisão).

Mesmo num país marcado por tanta corrupção, o caso do Banco Master tornou-se único pela amplitude do envolvimento conjunto de autoridades dos Três Poderes. E o pior: muitos dos citados como suspeitos continuam exercendo suas funções de influência e poder, como se nada tivesse acontecido. O ex-banqueiro foi extremamente ousado na “captura do Estado”, mas não imaginava encontrar no meio do caminho a firmeza do ministro do STF André Mendonça, que cumpre sua função de forma republicana.

No ano em que Lula move céus e terra para garantir seu quarto mandato, os bastidores de Brasília operam em ritmo frenético. Recentemente, o presidente foi flagrado convidando o ministro Alexandre de Moraes para um “cafezinho”. Logo depois, o próprio Moraes promoveu e foi o anfitrião do jantar que reaproximou Lula e Davi Alcolumbre – a que ponto chegou a tal “harmonia entre os poderes”. Graças ao Moraes articulador, Lula e Alcolumbre foram ver o petróleo no Amapá e as pautas do Governo serão destravadas no Senado.
Enquanto isso, um sigilo de 100 anos foi decretado para apagar os rastros de quem visitou o ex-banqueiro na prisão. Vorcaro, que sonhava em viver no luxo de Dubai, há meses pede socorro para sair da prisão. Lula, Alcolumbre, Hugo Motta e parte do STF — os mesmos que sepultaram a Lava Jato e blindaram condenados — estão fazendo de tudo para impedir a explosão da bomba-relógio conhecida como Daniel Vorcaro, o homem mais temido do Brasil.


(*) Edinelson Alves é jornalista

Foto: Arquivo/Divulgação

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