A imprudência mata


Condutores completamente sem noção parecem querer descontar suas frustrações existenciais utilizando a máquina como válvula de escape, completamente desprovidos de educação e respeito
Essa frase resume a realidade das vias públicas na atualidade. O aumento significativo dos acidentes de trânsito revela um comportamento recorrente e potencialmente letal de motoristas, motociclistas, ciclistas e mais recentemente, de condutores de veículos eletrificados. Não obstante a existência da sinalização viária horizontal e vertical, dos equipamentos de controle de velocidade como redutores, lombadas, sonorizadores, dos semáforos em cruzamentos e da fiscalização dos agentes, os casos graves continuam a acontecer com frequência inaceitável. Seria razoável imaginar que todos os envolvidos em deslocamentos, estejam eles motorizados ou não deveriam conhecer e praticar em todos os momentos, os ditames elementares estabelecidas pelas autoridades de trânsito. Ocorre que o desrespeito impera e os erros muitas vezes são punidos de imediato, até mesmo com a própria vida e a de terceiros. É necessário, portanto, identificar as causas e buscar alternativas para minimizar esse flagelo que atinge a todos, indistintamente.
O primeiro quesito a ser apontado é o comportamento apresentado por uma parcela considerável de condutores em que a pressa, a impaciência e a imprudência são parceiros inseparáveis pelo caminho. Por conta de atitudes que colocam a segurança coletiva em risco, os entreveros constantes indicam sintomas evidentes de que pessoas cada vez mais estressadas acabam canalizando seus problemas para o trânsito. No rol dos prováveis fatores que geram risco constante se destaca o uso do aparelho celular. Basta uma olhada rápida para identificar de imediato os infratores contumazes, a manusear imprudentemente a tela colorida em deslocamentos. Outro comportamento irresponsável eleva exponencialmente a possibilidade de ocorrências motorizadas, como o excesso de velocidade permitida para a via. Condutores completamente sem noção parecem querer descontar suas frustrações existenciais utilizando a máquina como válvula de escape, completamente desprovidos de educação e respeito.
Aqui se abre um parágrafo necessário, com o intuito de analisar a conduta de muitos ousados e inconsequentes motociclistas desse País. Sem dúvidas, o veículo motorizado de duas rodas é um meio de transporte extremamente ágil, versátil e que oferece grande mobilidade. Justamente por concentrar essas características predominantes os riscos são proporcionais aos benefícios advindos de seu uso, mas os abusos praticados por alguns usuários desse meio de transporte superam todos os limites imagináveis. Pilotam de forma agressiva, ignoram a existência do ponto cego em veículos de carga, ultrapassam perigosamente pela direita, fazem conversão proibida, excedem a velocidade e avançam pelo corredor de veículos acionando insistentemente a buzina querendo abrir caminho na marra, uma prática proibida pelo artigo 227 do Código de Trânsito Brasileiro.
Obviamente as infrações de trânsito são cometidas por condutores de absolutamente todas as espécies de veículos, mas as maiores consequências são infligidas aos motociclistas, a maioria deles injustiçados e estigmatizados por culpa daqueles que simplesmente ignoram quaisquer medidas restritivas indispensáveis para a segurança do trânsito. Nota-se, portanto, que não se trata apenas de uma complexa questão de mobilidade, mas também de completa insensibilidade e desprezo com o bem estar coletivo.
Diante de tantas tragédias diárias e vidas perdidas prematuramente, seria imprescindível incrementar a fiscalização com o intuito de penalizar os infratores com multas equivalentes e outras medidas previstas na legislação pertinente. E ainda, a promoção de campanhas de conscientização direcionadas ao público com a participação de diferentes segmentos da sociedade. Porque a indiferença incentiva. E a imprudência mata.
(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR
Foto: Alexandre Boucher/Unsplash
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