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Argentina, um país que anda em círculos

O ajuste de Milei implicou o corte de subsídios a serviços públicos, como luz e transporte, e, portanto, teve um impacto enorme no custo de vida da população. Para as classes média e baixa, isso resultou em empobrecimento

De Janaína Figueiredo, no UOL, sobre o país cujo sistema econômico Flávio Bolsonaro quer adotar, se eleito presidente do Brasil:

Acompanho a economia argentina há 25 anos e, nesse período, já perdi a conta de quantas crises, corridas cambiais, negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e manifestações sociais nas ruas vi in loco no país. Depois de tanto tempo, a Argentina me dá a sensação de ser um país que anda em círculos. As situações vão se repetindo.

Quase três anos após a posse do presidente Javier Milei, fui novamente às ruas sentir o clima entre os argentinos, em um momento em que um dos debates nacionais é o resultado do programa econômico do presidente.

Uma das novidades sociais é o surgimento do movimento dos endividados, que chegam a 20 milhões de pessoas em um país de 44 milhões de habitantes. O dado preocupante é que, desse total, seis milhões estão inadimplentes, um recorde histórico. Esse grupo integra a ala de perdedores do modelo de Milei, sustentado por um ajuste fiscal inédito que equilibrou as contas do país, virou exemplo para os organismos internacionais com sede em Washington e é um pilar que o presidente argentino não está disposto a negociar.

O ajuste implicou o corte de subsídios a serviços públicos, como luz e transporte, e, portanto, teve um impacto enorme no custo de vida da população. Para as classes média e baixa, isso resultou em empobrecimento. Em paralelo, indústrias estão fechando devido à abertura da economia e à queda do consumo interno – uma equação complexa.

Por outro lado, Milei conseguiu reduzir de forma expressiva a inflação, alcançou o primeiro superávit fiscal desde 2008 e começou a erguer um modelo que é amplamente benéfico para três setores: energia, mercado financeiro e serviços.

A questão na Argentina hoje é saber se a sociedade, que elegeu Milei em 2023 para sair de um peronismo aliado ao kirchnerismo que entregou um país à beira da hiperinflação, vai suportar o custo do ajuste por muito mais tempo. Já se ouve na rua que, “com o peronismo, vivíamos melhor”.

Nas eleições presidenciais de 2027, as urnas dirão se a Argentina continuará andando em círculos. Milei está em queda nas pesquisas e chegará desgastado, como aconteceu com o ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019), que não conseguiu se reeleger e não teve sucesso em sua política econômica – o PIB recuou em três de seus quatro anos de mandato . Naquele ano, o peronismo, com a chapa Alberto Fernández-Cristina Kirchner voltou ao poder. E, no governo dele, a parcela de pobres do país chegou a 42%, enquanto a inflação passou dos 200% ao ano. Milei é resultado desse desastre, e agora muitos se perguntam se foi longe demais em sua receita para dar um jeito na economia argentina.

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