Flávio já acusou Moro de “soltar Lula”

Para ex-juiz, hoje filiado ao PL, a culpa foi de Bolsonaro

Sergio Moro tem construído quase toda a sua campanha ao Governo do Paraná em um único tema: enfrentar Lula e o PT. Para Flávio Bolsonaro, porém, o próprio Moro foi responsável por criar o problema que hoje mobiliza seu discurso eleitoral. Os dois chegaram a trocar farpas públicas em 2022 para disputar justamente quem deveria ser responsabilizado pela soltura de Lula, que acabou voltando ao poder.

A acusação de Flávio veio em fevereiro daquele ano, quando Moro ainda era pré-candidato à Presidência. Em entrevista ao O Globo, o senador afirmou: “Para mim, quem soltou o Lula foi o Moro.” Segundo Flávio, o ex-juiz teria cometido irregularidades nos processos que levaram o STF a anulá-los. “Era só ter cumprido a lei que Lula estava preso até hoje”, disse.

Dias depois, Flávio levou o ataque para a Folha de S.Paulo, em artigo intitulado “Moro soltou Lula”. O senador afirmou que Moro não havia cumprido a lei e que os abusos atribuídos ao ex-juiz levaram à anulação das condenações. Ao final, escreveu: “Moro acabou com a Lava-Jato, traiu os brasileiros e, não fosse sua vaidade, Lula estaria preso até hoje.”

Moro respondeu diretamente nas redes sociais, compartilhando uma publicação sobre o artigo. “A verdade precisa ser dita: a turma da impunidade, do governo e da oposição, juntou-se para acabar com o combate à corrupção e a Lava-Jato. E onde passa o boi, passa a boiada”, escreveu. Sobre uma imagem de Flávio, resumiu: “Foi você que soltou Lula, Flávio.”

A crítica de Moro era ainda mais ampla. Ele sustentava que a liberdade de Lula havia sido resultado da atuação do governo Bolsonaro contra a Lava-Jato e chegou a questionar Flávio: “Entre petrolões e rachadinhas, você quer mesmo que os brasileiros acreditem que a culpa é do juiz?” Em sua avaliação, Bolsonaro havia desmontado o combate à corrupção.

A disputa tinha um componente especialmente incômodo para os dois. Moro havia sido o juiz que condenou Lula e se tornou uma das principais figuras da Lava-Jato; Flávio, por sua vez, era um dos principais alvos políticos da operação de combate à corrupção que Moro dizia defender. Ao atribuírem um ao outro a responsabilidade pela volta de Lula ao jogo eleitoral, os dois também expunham a ruptura entre antigos aliados do governo Bolsonaro.

A cronologia dos fatos ajuda a entender a disputa: Lula deixou a prisão em novembro de 2019 depois que o STF mudou o entendimento sobre a possibilidade de prisão após condenação em segunda instância. Em 2021, o Supremo anulou as condenações de Lula por entender que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgá-lo e, no caso do tríplex, também declarou Moro parcial, usando como um argumento a ida dele para o Ministério da Justiça de Bolsonaro.

As decisões devolveram ao petista os direitos políticos e permitiram sua candidatura e eleição em 2022, seguida pela nova tentativa de reeleição agora em 2026.