Folheto sugere que a operação capitaneada pelo ex-juiz federal sempre foi uma engrenagem de um projeto político maior desenhado para aniquilar um espectro ideológico
Do jornalista Eduardo Goulart, editor sênior de investigação do The Intercept Brasil:
Um panfleto preto estampa na capa um carimbo vermelho em letras garrafais: “CONTEÚDO SIGILOSO”. À primeira vista, a estética parece um dossiê saído direto dos porões da ditadura, mas é só o material de campanha de uma trupe bolsonarista do PL e do Podemos. O título da obra? “Manual para acabar com a esquerda no Paraná”.
O recheio do folheto traz uma linha do tempo que começa no impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e culmina na “chance da virada” de 2026, escalando como salvadores da pátria Flávio Bolsonaro, que disputa a presidência, o senador e candidato a governador Sergio Moro, o deputado e candidato ao Senado Filipe Barros, o deputado federal que disputa a reeleição Felipe Francischini e a mãe dele, Lu Bonatto, candidata à deputada estadual.
O que chama a atenção não é apenas a linguagem evocativa de extermínio – que ecoa diretamente aquele famigerado “fuzilar a petralhada aqui no Acre” proferido por Jair Bolsonaro anos atrás.
O ponto alto da peça é como ela abraça Moro de vez e o vincula a essa visão extremista. O material sugere que a operação capitaneada pelo ex-juiz sempre foi uma engrenagem de um projeto político maior desenhado para aniquilar um espectro ideológico.
Como um dos nossos esportes favoritos aqui na redação é seguir o rastro do dinheiro, fomos olhar as letrinhas miúdas do tal manual. O material foi impresso pela gráfica Benvenho & Cia Ltda. Quem pagou a conta foi o CNPJ 68.519.051/0001-68, que pertence à campanha de Luis Felipe Bonatto Francischini.
Até o momento, não há evidências concretas de crime eleitoral ou ilegalidade financeira. Mas a indignação que um material desses provoca vai muito além do Código Penal. O extremismo é parte do plano de poder dessa turma.
E o mais irônico de tudo: ao tentarem criar um ar de “conteúdo sigiloso”, eles acabaram documentando e distribuindo nas ruas um segredo muito mal guardado: a extrema direita quer acabar com a esquerda.
A gráfica Benvenho confirmou que a campanha de Francischini encomendou a impressão do panfleto, mas ressaltou que a fatura ainda não foi paga.
Procuramos também Felipe Francischini, Filipe Barros e Sergio Moro para comentar o material de campanha, mas não tivemos retorno até o fechamento desta edição.
