Ratinho Júnior e a arriscada terceira via no Paraná


Na campanha deste ano, o governador Carlos Massa Ratinho Júnior tem liderado inesperadas reviravoltas
No xadrez, a dama atua como a principal arma de ataque, defesa e controle de espaço, combinando as habilidades da torre e do bispo para se mover em linha reta em qualquer direção. Essa figura soberana tem a liberdade de avançar quantas casas desejar e capturar as peças adversárias. Na campanha deste ano, o governador Carlos Massa Ratinho Júnior tem liderado inesperadas reviravoltas. Na sua busca para criar uma arriscada terceira via, ele dividiu aliados, atraiu uma ex-oponente de peso e contrariou as expectativas que sua base defendia em torno dos nomes que deveriam compor a chapa majoritária.
Ratinho fez um movimento brusco ao se lançar na disputa presidencial, apoiado pelo presidente do PSD, Gilberto Kassab — operador fisiológico que, simultaneamente, apoiava o governador Tarcísio de Freitas (de quem foi articulador e Secretário de Governo) e o presidente Lula, governo no qual o partido possui os ministérios de Minas e Energia, da Agricultura e da Pesca e Aquicultura. O governador paranaense anunciou que pretendia furar a bolha da polarização. De imediato, rompeu a aliança à direita com Flávio Bolsonaro e afastou-se do deputado federal Filipe Barros, do PL, a quem antes havia declarado apoio para a disputa de uma vaga ao Senado.
Dois meses após atravessar o Rubicão, Ratinho Júnior descobriu o poder de desconstrução de imagem de seus adversários: passou a ser alvo de ataques tanto da direita quanto da esquerda. O recuo foi inevitável, até porque, após dois mandatos, ele não havia preparado um sucessor. Tinha vários potenciais nomes, mas não tinha nenhum consolidado. Guto Silva, que ocupara a chefia da Casa Civil, a Secretaria de Planejamento e a Secretaria das Cidades, foi descartado como candidato a governador e na disputa pelo Senado.
Com nomes de peso já testados nas urnas e com reconhecida capilaridade, como Álvaro Dias, Rafael Greca e Alexandre Curi, esperava-se que um deles fosse o escolhido para a disputa ao Palácio Iguaçu. Mas Ratinho Júnior anunciou Sandro Alex, ex-secretário de Infraestrutura. A insatisfação no entorno foi geral. Curi, presidente da Assembleia Legislativa, que desde sempre sonhava em ser candidato ao governo, saiu do PSD do governador e buscou abrigo no Republicanos. Três vezes prefeito de Curitiba, Rafael Greca também deixou o PSD e migrou para o MDB.
Havia a expectativa de que, diante da reação negativa à escolha de Sandro Alex entre deputados e prefeitos, uma nova mudança pudesse ocorrer antes da convenção, mas isso não aconteceu. As consequências vieram. Líder nas pesquisas para o Senado, Álvaro Dias, isolado na chapa governista, saiu da disputa, e declarou: “Infelizmente, compreendi que hoje não existem, dentro do grupo político liderado pelo governador, as condições necessárias para construir essa unidade que eu tanto almejei”.
Em tempo, Cristina Graeml, que havia sido dura opositora do grupo de Ratinho na disputa pela prefeitura de Curitiba, após passar pelo PMB, pelo Podemos e pelo União Brasil, acabou, finalmente, a convite de Ratinho, filiando-se ao PSD para disputar uma vaga ao Senado. Em meio a essas reviravoltas, Pedro Lupion, também descontente, deixou a presidência do Republicanos para apoiar Sérgio Moro ao governo.
Na dança das cadeiras, ficou claro que o “MDB velho de guerra” não existe mais. Rafael Greca, que havia jurado por todos os santos que não aceitaria a vice por considerar que isso seria negar a sua história, acabou se tornando o vice de Sandro Alex. Alexandre Curi, que com o apoio de deputados e prefeitos tanto lutou para ser o indicado ao governo, terminou na disputa pelo Senado.
No afã de ajudar seu indicado, Ratinho Júnior faz campanha como se ele fosse o candidato, e até já foi multado pela Justiça Eleitoral. Se romper a forte polarização e alavancar Sandro Alex, o governador alcançará um feito histórico. Porém, se isso não ocorrer, o governador aprenderá, na prática, que, no jogo de xadrez, ao contrário do cavalo, a dama não pode saltar por cima de nenhuma peça — seja ela aliada ou adversária. Saberá também que não se pode mudar de direção na mesma jogada, pois o movimento deve ser feito em uma única linha reta por turno. No próximo domingo, 4 de outubro, serão reveladdas as consequências e o resultado desse jogo.
(*) Edinelson Alves, jornalista
Foto: Redes sociais
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