As pesquisas deixam de ser meros espelhos fotográficos da intenção de voto e passam a atuar como arquitetas do comportamento final
A elaboração da realidade social e política não é um fenômeno passivo, mas, um processo dinâmico moldado pelas informações que consumimos, especialmente, em momentos de alta tensão decisória.
O recente cenário eleitoral do Paraná, com os dados divergentes apresentados pelas pesquisas Quaest e Atlas às vésperas do pleito, no dia 3 de outubro, ilustra como a percepção da realidade funciona como um direcionamento comportamental.
Quando a pesquisa Quaest indicou Sergio Moro com 43%, Sandro Alex com 29% e Requião Filho com 27%, e a pesquisa Atlas apresentou Sergio Moro com 44,7%, Requião Filho com 31,6%, e Sandro Alex com 20,2%, não houve somente uma assimetria estatística, mas, a oferta de dois “cenários” distintos para o eleitor processar horas antes de ir às urnas.
Essa situação, e aqui isso me interessa, pode ser analisada sob a ótica de como a mente constrói o que entendemos como real.
Esse tema é explorado em diversos artigos científicos, os quais coincidem basicamente no fato que nossa experiência e nossas escolhas são estritamente dependentes dos estímulos e dados que nos são fornecidos.
Se a informação que alimenta a cognição do eleitor apresenta cenários contraditórios sobre quem é a força de oposição viável, a “realidade” política entra em um colapso momentâneo, sendo que o eleitor não reage ao fato concreto, que só existirá somente após a apuração, mas à representação de uma “realidade” antecipada desse futuro fato concreto.
Em situações de estresse, pressão e expectativa, a percepção do entorno sofre alterações significativas, tal questão a respeito da percepção da realidade em ambientes críticos e de vulnerabilidade, como o contexto hospitalar, demonstram que a forma como a informação é comunicada dita quase inteiramente a resposta emocional e comportamental do indivíduo.
Ao transpor essa lógica para o dia anterior de uma eleição polarizada, a incerteza aguda sobre o segundo lugar gerou, muito provavelmente, uma fragmentação na percepção de viabilidade, pois para o eleitor que desejava um segundo turno ou apoiava um dos candidatos subsequentes, a assimetria das pesquisas criou uma “ilusão” de indefinição paralisante.
O resultado consolidado no dia 4 no Paraná, a vitória no primeiro turno de Sergio Moro com 50,10%, seguido por Sandro Alex com 25,37% e Requião Filho com 23,47%, demonstra a força motriz dessa percepção na reta final. Uma vez que diante da confusão sobre quem de fato seria o “voto útil” da oposição, o comportamento de parte do eleitorado sofreu um redirecionamento.
Nesse contexto, a resposta direcionada, no caso impulsionada por essa névou informacional, buscou o caminho da maior certeza psicológica, a liderança de Sergio Moro, atestada com consistência em ambas as pesquisas, tal dado funcionou como a única âncora de “realidade” inquestionável na mente dos eleitores, independentemente, de qual levantamento estivessem consumindo.
A minha opinião é que as pesquisas, neste contexto, deixam de ser meros espelhos fotográficos da intenção de voto e passam a atuar como arquitetas do comportamento final.
Elas criam a atmosfera cognitiva, no sentido de apertar a tecla “Confirma” naquele que tem ou não viabilidade política, e essa decisão é tomada de forma irrevogável, pois uma vez feita, não há volta, haja vista que o voto não pode ser cancelado ou refeito, caso o eleitor descobrir, horas depois, durante a apuração, que a realidade concreta é diferente da percepção criada pelas pesquisas.
A assimetria informacional sobre os adversários diluiu a clareza do cenário para a oposição e pode ter acelerado uma migração de votos focada em resolutividade, também denominado de voto útil, comprovando que, nos momentos críticos que antecedem uma decisão, a realidade que percebemos é a força mais determinante na construção da realidade que efetivamente se concretiza.
Tudo indica que estamos frente a outra dimensão a respeito das pesquisas eleitorais, e que não somente devemos continuar o debate a respeito das metodologias utilizadas, mas a sua capacidade de criar uma atmosfera cognitiva, ou dito de forma, as pesquisas como agentes criadores de realidade.
Imagem gerada por IA
