O sujo e o mal lavado

O sistema político atual é anacrônico, ultrapassado e impregnado por vícios de origem

O aparelho celular vibrava sem parar. O interlocutor do outro lado inquiria desesperado, com sucessivas mensagens de “Você está assistindo ao debate? Diga ai, o que está achando…”. Respondi sem pestanejar “Debate? Onde? Qual canal? Não, estou assistindo ao evento do MMA no octógono da Band. É desse que você está falando?”. Silêncio. Leu e não respondeu. Melhor assim. Tive que juntar todo o estoque de paciência para seguir acompanhando o pega da campanha presidencial. Dois contendores, duas ideologias distintas, mas ambos rigorosamente nivelados em suas rasteiras colocações. Que, aliás, não passaram de evasivas dispersas, imprecisas, incompatíveis com a relevância dos cargos ora ocupados, respectivamente a presidência da República e uma cadeira no Senado Federal.

E assim se deu o pretenso “debate”, que agravado pelo caos instalado no palco virou fiasco. Os participantes optaram deliberadamente por tentar induzir as pessoas ao erro com inverdades, tumultuando o bom andamento daquele que haveria de ser o momento propício para a apresentação de proposições factíveis e razoáveis. A pergunta, portanto, é legítima e pertinente: Onde estão as propostas? E a discussão séria sobre os problemas e as necessidades urgentes da população? Por quais motivos os dois candidatos se omitiram em apresentar aos eleitores seus projetos para o desenvolvimento da nação? Lavar roupa suja ao vivo com acusações gravíssimas, algumas maliciosas e levianas é estratégia eficiente para arrebanhar votos dos indecisos?

Respostas existem e estão por todo lado. Eles só pensam naquilo. Só se interessam pelo poder, pelo mando político e por outras particularidades específicas que não carece aqui mencionar. Não se deve confiar em conversa de político brasileiro. A história mostra que o cidadão não está sendo representado como deveria por seus escolhidos, pelo contrário. As revoadas de candidatos acontecem a cada quatro anos e depois disso não há como cobrar as promessas de campanha, porque eles literalmente desaparecem. Tem ainda o fato de que o parlamentar obedece às orientações da liderança dos partidos e mesmo querendo, não detém a autonomia para decidir por conta própria. O sistema político atual é anacrônico, ultrapassado e impregnado por vícios de origem. Então resta ao contribuinte brasileiro procurar se inteirar das notícias acessando canais de comunicação independentes, uma vez que as mídias tradicionais estão comprometidas com esse ou aquele grupo político e de onde as informações são transmitidas com parcialidade.

Essa decepção com a política remete às lembranças de meus saudosos e impagáveis amigos Giuseppe, o “Profeta” e Etore Lombardo, o “Trombone”, irmãos italianos de nascimento e brasileiros por opção. Diziam não haver no mundo País melhor que esse por seu clima ameno, suas terras férteis, a alegria e a resiliência de sua gente. Mesmo quando o então mandatário Collor de Mello surrupiou traiçoeiramente a grana da população eles se reergueram e seguiram em frente. Se entre nós ainda estivessem, os gêmeos tratariam essa patacoada com a irreverência costumeira e com muito bom humor. O Profeta provavelmente diria que a peleja aconteceu entre “o sujo e o mal lavado”. Já o Trombone resumiria a situação em apenas uma frase e sem papas na língua, com seu sotaque carregado de “italianês” garantindo que “… são tutti buona gente, ma tutti ladri!”. É vero… é vero…


(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR.

Foto: Band