Enquanto covid matava, senador do PL passeava com garotas de programa

O passeio de lancha de Flávio Bolsonaro com garotas de programa e empresários no lago Paranoá em plena pandemia faz reavivar o caso Covaxin, um dos alvos da CPI da Pandemia; relatório de Renan Calheiros incluiu maringaenses

Uma reportagem investigativa da revista piauí, intitulada “Uma tarde no lago”, revelou que empresários intermediadores da vacina indiana Covaxin promoveram um encontro festivo a bordo de uma lancha no lago Paranoá, em Brasília, para agradar o senador Flávio Bolsonaro (PL) no auge da pandemia de covid-19. O episódio lança luz sobre as redes de influência e acesso político que se tornaram o centro das investigações da CPI da Pandemia, onde foram ouvidos ao menos três maringaenses, dois deles indiciados no relatório final, junto com outras 72 pessoas, em meio às suspeitas de corrupção na compra do imunizante pelo Ministério da Saúde.

O churrasco no lago Paranoá e os agrados a Flávio Bolsonaro – Em 17 de julho de 2020, enquanto o Brasil registrava mais de mil mortes diárias causadas pela covid-19, o dono da Precisa Medicamentos, Francisco Maximiano, e seu diretor institucional, Danilo Berndt Trento, desembarcaram em Brasília em um jatinho privativo vindo de São Paulo. Acompanhados de um agente de viagens e de três garotas de programa contratadas na capital paulista, a dupla organizou um churrasco a bordo de uma lancha com a intenção explícita de estreitar laços com a gestão federal para viabilizar um acordo de produção e venda da vacina Covaxin no Brasil.

O convidado de honra do passeio foi o senador Flávio Bolsonaro, que esteve no local acompanhado de seu amigo e então sócio Alexandre Santini. Durante a confraternização na embarcação, Danilo Trento presenteou o parlamentar com um relógio da marca Rolex de pulseira prateada. A proximidade rendeu desdobramentos posteriores: três meses após o encontro, Flávio Bolsonaro intermediou e participou de uma reunião de Maximiano com o então presidente do BNDES, Gustavo Montezano, para tratar de financiamento em projetos de telecomunicações.

A tentativa de venda da Covaxin pelo valor de R$ 1,6 bilhão converteu-se na linha de investigação mais grave apurada pela CPI da Pandemia. As suspeitas vieram a público após os depoimentos do servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda e de seu irmão, o deputado federal Luis Miranda. O funcionário público denunciou ter sofrido “pressão atípica e excessiva” de superiores para acelerar a aprovação da importação de 20 milhões de doses da vacina fabricada pela indiana Bharat Biotech e intermediada no país pela Precisa Medicamentos. Entre os pontos irregulares apontados estavam a exigência de pagamento antecipado a uma empresa offshore em Cingapura (a Madison), o preço de US$ 15 por dose e a ausência de autorização prévia da Anvisa.

Em depoimento aos senadores, o deputado Luis Miranda afirmou que ele e o irmão relataram pessoalmente as suspeitas de fraude ao então presidente Jair Bolsonaro em reunião no Palácio da Alvorada, em 20 de março de 2021. Segundo o parlamentar, ao tomar conhecimento das irregularidades, o presidente associou o esquema ao líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros, afirmando: “Foi o Ricardo Barros que o presidente falou” e que “isso deve ser coisa de ‘fulano'”.

Defesa e contrapontos – Convocado a prestar depoimento à CPI, o ex-ministro da Saúde negou categoricamente qualquer envolvimento nas negociações da Covaxin ou atuação para favorecer a Precisa Medicamentos. O parlamentar sustentou que jamais tratou da compra de vacinas com o presidente e afirmou que a referência feita por Bolsonaro devia-se a reportagens sobre um contrato antigo da empresa Global Saúde. A Global — que pertence aos mesmos sócios da Precisa — havia deixado de entregar medicamentos para doenças raras comprados pelo Ministério da Saúde quando Barros era titular da pasta durante o governo Michel Temer. Barros também defendeu a legalidade de emendas parlamentares de sua autoria relativas à liberação de insumos sanitários.

Relatório final e pedidos de indiciamento – Ao término dos trabalhos, a CPI da Pandemia concluiu que o processo de aquisição da Covaxin foi marcado por ingerência política e tentativas ilícitas de favorecimento empresarial. O relatório final apresentado pelo senador Renan Calheiros recomendou o indiciamento de dezenas de investigados, entre eles o parlamentar e a médica Nise Yamaguchi (por epidemia com resultado morte), nascida em Maringá mas atuantes em São Paulo, onde disputou e perdeu as duas últimas eleições; este ano, filiada ao PL, recebeu 42.758 votos na disputa pela Câmara Federal.

Dentre os indiciamentos propostos constam o do presidente Jair Bolsonaro (por prevaricação e outros crimes), o do senador Flávio Bolsonaro, o do deputado Ricardo Barros (acusado de prevaricação, organização criminosa e improbidade administrativa) e os dos executivos da Precisa Medicamentos, Francisco Maximiano e Danilo Trento. O contrato para aquisição da Covaxin acabou suspenso e cancelado antes que qualquer recurso público fosse efetivamente pago.

Arquivamento – Em junho de 2023 o ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, determinou o arquivamento de um procedimento preliminar contra o deputado maringaense sobre supostas irregularidades nas tratativas para compra de vacina contra a covid. O pedido de apuração havia sido apresentado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) a partir das conclusões do relatório final da CPI da Covid do Senado.

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado