A mais nova monarca a reivindicar o trono do absurdo é a parlamentar Jessicão, deputada estadual mais bem votada do Paraná
A política brasileira parece ter entrado definitivamente em um portal para o País das Maravilhas — com a desvantagem de que, por aqui, a lagarta não é poética e os chapeleiros não vendem chá: apenas conselhos jurídicos desastrosos.
A mais nova monarca a reivindicar o trono do absurdo é a parlamentar Jessicão, deputada estadual mais bem votada do Paraná (PL), que resolveu canalizar sua Rainha de Copas interior. Diante do resultado democrático, a nobre representante não hesitou em esbravejar sua sentença máxima para qualquer cidadão que ouse pensar diferente: “Cortem-lhe o emprego!”
“Demita a empregada petista! Troque de barbeiro! Corte o amigo!”, vociferou a parlamentar em suas redes, com a serenidade de quem acabou de descobrir que o baralho da CLT tem regras e que a Constituição Federal não foi escrita em cartas de jogo.
A ideia de resolver divergências eleitorais limpando o quadro de funcionários da empresa da família é o ápice do voluntarismo autoritário — a fantasia de quem acredita que o CNPJ confere poderes absolutistas e que o contrato de trabalho inclui, em letras miúdas, a obrigação de rezar pela mesma cartilha ideológica do patrão.
O pequeno detalhe esquecido nessa performance real é que, fora da toca do coelho, o Ministério Público do Trabalho não costuma achar graça em assédio eleitoral. No mundo real, incitar a demissão por viés político não é simplesmente “liberdade de expressão”: pode configurar ilícito trabalhista, com direito a dano moral coletivo e, eventualmente, conta para pagar.
Mas a ironia mais refinada reside no contracheque: a ilustre majestade exige a cabeça do trabalhador e o corte do sustento da própria população, esquecendo-se de que é sustentada, do primeiro ao último dia do mês, pelos impostos recolhidos exatamente por esses mesmos contribuintes.
No tribunal do teto de vidro, exige-se o sacrifício alheio enquanto se desfruta de um holerite garantido pelo bolso de quem ela manda demitir.
A Rainha de Lewis Carroll berrava para cortadores de cartas e soldados de pintura. A nossa versão tupiniquim berra para trabalhadores que acordam cedo para pagar boleto — inclusive os boletos do gabinete.
Quando a histeria passa, descobre-se o óbvio: a majestade está nua, o baralho é de papel e nem a coroa do funcionalismo público dá direito a guilhotinar a carteira de trabalho alheia.
(*) Israel Marazaki — fiscal por instinto, cronista por raiva e sentinela por missão
Imagem: Reprodução/Redes sociais
