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Eu preciso falar sobre Maria Novak

Não podemos mais ignorar o barulho e a violência. Não podemos naturalizar o absurdo

29845. Não é um número aleatório ou arbitrário. O natural é que quando morremos, seja um funeral mais simples, seja um mais pomposo, haja inscrições: Data de Nascimento e Data da Morte. Alguns dizeres e enterra-se a pessoa: “Marido fiel e pai amoroso”. Isso não é uma regra, é verdade. Durante a pandemia da Covid-19, por exemplo, 716.626 pessoas morreram, algumas dessas não tiveram direito à despedida. Mas nós imaginamos a linha da vida com o começo, um fim e qualquer adjetivo que traga conforto. Mas existe o número 29845. E isso muda tudo.

    Nos últimos dias, confesso, estava com medo. Não do resultado das eleições, mas de algo concreto que já se manifestava nas ruas. E, aqui, precisamos dar nome às coisas. Durante o pleito, uma mulher faz saudação nazista, em colégio eleitoral. Em Maringá, um homem sem camisa, cavanhaque e com uma bermuda manchada de sangue. Em tom de piada, ria de ter agredido cinco petistas. Listas de boicote à empresas com proprietários ou funcionários de esquerda. Alunos de colégio tramando bater em professor e explodir vaso sanitário. Alunos de um curso de medicina compartilhando imagens nazistas, com comentários crueis. Se fala como nazista. Age como nazista, cheira como nazista. Nazista é. E, aqui, não cabem eufemismos. O que é, é. E precisa ser dito, exposto e combatido.

    Judenboykott foi uma ação coordenada por Adolf Hitler em abril de 1933. Os nazistas identificaram os comércios judeus, fizeram marcações visuais, depois começaram a intimidar e boicotar esses estabelecimentos. Na Alemanha de 33, ou na Maringá de 26, um fator comum: um grupo de pessoas, autodeclaradas superiores, tentam estigmatizar pessoas, trabalhadores e estabelecimentos. A prática não é uma coincidência. Operam da mesma forma. Silenciar para abrir espaço à violência e ao extermínio. Pode parecer exagero, mas, parecia exagero também em 33.

    Quando vi as mensagens dos alunos do colégio, senti uma sensação parecida de quando passei pelos portões de Auschwitz, em janeiro de 2024, quando estive na Polônia. Um mal-estar na alma. Olhando para o passado vi como parte do futuro está contaminado pelo ódio. Quando vi os futuros médicos trocando mensagens, lembrei-me do hospital de Birkenau, onde não se tratava os enfermos, mas eram desenvolvidos experimentos com os judeus. Aí, me perguntei: a democracia, de fato, venceu, ou simplesmente resistiu e sobreviveu?

    Minha maior indignação se deu pelas agressões sucessivas e reiteradas, Brasil adentro. Em Maringá, a festa, a fala arrastada e truculenta, os gestos obscenos e, enfim, a celebração: “bati em cinco”, “o quê?”, “PETISTAS”. A naturalidade da violência, me fez pensar na morte. O natural é que quando morremos, seja um funeral mais simples, seja um mais pomposo, haja inscrições: Data de Nascimento e Data da Morte. Alguns dizeres e enterra-se a pessoa: “Marido fiel e pai amoroso”. Então, me lembrei de Maria Novak.

    Olhos claros, cabeça raspada. Não havia sorriso. Data de nascimento: desconhecida. Dia de chegada ao campo: 19.01.1943. Dia da Morte: 10.08.1944. Não se sabe se era mãe, irmã ou esposa. Sabe-se somente o número do pijama: 29845. Afinal, o que resta depois dos boicotes e violência, senão reduzir as pessoas a simples números e cinzas?

    Maria Novak era um dos tantos quadros na parede. Cada quadro, uma história. Um fim triste e doloroso. Maria Novak me ensinou que, em momentos da história, resiliência não basta, quando a violência bate à porta.

    Não podemos mais ignorar o barulho e a violência. Não podemos naturalizar o absurdo. E, isso, não é uma questão de política. É uma questão de sobrevivência. Até quando resistiremos a boca faminta dos neonazistas brasileiros? Eles não são a maioria. Mas até quando? É essa a pergunta que me tira o sono todas as noites…

    Fotos: Victor Farias

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