Tempestades

O prefeito precisa provar que sua gestão não é apenas sofisticada no papel ou em cenários ideais, mas eficiente e ágil na reconstrução real

Tanto na política quanto na gestão pública, o meio de mandato costuma atuar como um teste de estresse, colocando narrativas de eficiência e planejamento frente a frente com o previsível em tempos de mudanças climáticas.

De um lado, eventuais reveses de Donald Trump nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos representariam uma tempestade política capaz de paralisar sua agenda heterodoxa.

Do outro, aqui a querida cidade de Maringá enfrenta uma tempestade literal e devastadora sob a gestão de Silvio Barros II, um prefeito no terceiro mandato que construiu sua imagem sobre os pilares do planejamento urbano e da experiência internacional, mas que agora é forçado a ficar na cidade para gerenciar um evento ambiental.

Embora ocorram em esferas e naturezas diferentes e distantes, as duas crises compartilham paralelos sobre os limites dos discursos no planejamento e a necessidade de adaptação sob pressão.

Nas eleições de meio de mandato, um resultado negativo para o partido do Trump funciona como um freio imposto pelo eleitorado, onde a eventual perda de controle no Congresso ou a derrota de aliados significaria a interrupção abrupta de seu planejamento de taxas e de guerra.

Em um “clima” político adverso forçaria o governo a abandonar a dinâmica de sua agenda, para adotar uma postura de defesa, lidando com bloqueios legislativos e uma oposição revigorada, provando que o planejamento político é frágil diante das oscilações da vontade popular decorrentes de um governo altamente questionável e encarecedor da vida dos cidadãos.

Em Maringá, a crise não veio das urnas, mas dos céus, pois na madrugada de 2 de novembro, chuvas intensas e ventos que chegaram a 100 km/h atingiram a cidade, sendo que o saldo foi de destruição estrutural severa, mais de 82 mil imóveis sem energia e até o destelhamento do quartel do Corpo de Bombeiros.

Silvio Barros II, engenheiro civil que já administrou a cidade em duas gestões desde 2005 a 2012, é um político conhecido por suas viagens em busca de referências externas e por um forte discurso focado no planejamento a longo prazo.

Contudo, a magnitude do evento exigiu a troca imediata da prancheta metódica pelo colete laranja da defesa civil, e uma ação emergencial bruta, liderada de fato por seu secretário Mussio, que mobilizou equipes para desobstrução de vias.

A comparação entre os dois cenários revela como crises de meio mandato desconstroem narrativas e exigem dos líderes o que eles prometeram, porém não entregaram, lá uma América Grande e aqui Maringá merece mais.

Um presidente costuma confiar em sua capacidade de ditar a pauta, enquanto um prefeito com o perfil de Barros confia na engenharia, no preparo técnico e nas referências globais de gestão, contudo, nem a retórica previne uma guinada do eleitorado nas urnas, nem o melhor plano diretor, que aliás não considerou este fato, impede a fúria de um evento climático extremo.

Um revés nas eleições de meio mandato transforma o Poder Executivo em um centro de gerenciamento de crises políticas, em Maringá, o desastre climático transformou a prefeitura em um epicentro de resgate, onde o discurso visionário cedeu lugar à necessidade elementar de religar a luz, limpar destroços e abrigar cidadãos.

Para ambos os líderes, a forma como respondem à crise define a segunda metade de seus governos, ou seja, um líder enfraquecido nas urnas precisa provar que ainda consegue entregar resultados sem a maioria, e o prefeito precisa provar que sua gestão não é apenas sofisticada no papel ou em cenários ideais, mas eficiente e ágil na reconstrução real.

Assim, o verdadeiro teste para gestores que se apoiam em discursos de modernidade e planejamento ou de força, não ocorre quando os ventos sopram a favor, mas na rapidez e solidez com que conseguem agir quando a tempestade inevitavelmente chega e com eles chega à realidade do abandono e ineficiência dos discursos.

Provável é que agora seja contratada uma empresa para planejar a arborização da cidade para 2050 e o InPacta entre em jogo…

Foto: João Fiorenza